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'Mais que maquiagem', gritam feministas em evento na Unicamp

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Afinal, o que querem as mulheres? A pergunta dá nome ao evento proposto pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. A programação do evento, que segue até a próxima sexta-feira (13), e inclui palestras, oficinas e cursos com temas como maquiagem, moda, beleza e saúde feminina, se tornou alvo de críticas de estudantes da instituição.

Durante a cerimônia de abertura, realizada nessa terça-feira, o auditório tinha a plateia quase totalmente formada por mulheres, que aguardavam a palestra da psicanalista Regina Navarro Lins, com o tema “A mulher e o amor”. O público foi surpreendido por um grupo que levantou de suas cadeiras gritando: “Ô, reitoria, fala a verdade: o que as mulheres querem é mais que maquiagem”.

As manifestantes tomaram o espaço entre o palco e a plateia erguendo cartazes da Frente Feminista da Unicamp e que pediam vagas na creche da universidade, fim da violência contra as mulheres, equiparação salarial, entre outras pautas universitárias e sociais. Em coro, criticaram a programação do evento. “Estamos aqui hoje, para manifestar nosso repúdio à Reitoria, que acha que o Dia da Mulher é um dia de mais maquiagem, é um dia de discutir com a psicanalista porque ‘somos histéricas’ ou é um dia em que a gente tem que se fechar no nosso relacionamento.”

No discurso, o grupo pedia também por assistência estudantil e respeito aos nomes sociais de alunos e alunas transexuais. Ao final, as mulheres que estavam na que assistiam aplaudiram as que seguravam os cartazes. Apesar das críticas, o Grupo Gestor de Benefícios Sociais (GGBS), responsável pela organização das atividades, entende que não houve erro na escolha dos temas, mas que o evento pode ser aprimorado. A assessoria do grupo ressaltou que a palestrante Regina tem história ligada aos movimentos contemporâneos pela libertação das mulheres.

A polêmica que ocupou o auditório da Unicamp já havia ganhado espaço nas redes sociais. No dia 6 de março, a estudante de doutorado em teoria literária Amara Moura compartilhou a programação do evento em um grupo de estudantes da universidade no Facebook, junto a um texto da comunidade “Mapa de coletivos de mulheres”. A publicação questionava o que chamavam de ” programação praticamente focada em moda, beleza, neuras amorosas e sexuais”. Todos os comentários foram concordando com a postagem e criticando o evento.

Amara acredita que a instituição deveria aproveitar a ocasião para debater temas como estupro, assédio, trotes machistas, entre outras bandeiras do feminismo. Para ela, a programação não respeita o caráter do dia da mulher. “Promover um evento que apague o teor de luta do Dia da Mulher, comemorado em 8 de março, que transforme a data numa mera celebração, lugar para promover marcas de empresas e não para colocar em questão as violências que mulheres sofrem na sociedade, na universidade, é absurdo.”

Já a estudante Juliane Furno, mestranda do Instituto de Economia da Unicamp, entende que o problema não está nos temas propostos e sim na ausência de outros debates importantes. “O debate em torno da saúde da mulher, da moda, do bem estar e questões ligadas ao amor não deixam de ser temas importantes e que de fato dialogam com as mulheres brasileiras. Mas é insuficiente olhando para uma sociedade como a brasileira, que ainda mantém relações de gênero muito desiguais.”

Mesmo com a discussão, o primeiro dia do evento contou com auditório lotado e os cursos previstos já estão com lotação esgotada. Para a assessoria do GGBS, o preenchimento das vagas demonstra adesão à programação. Por e-mail, o GGBS afirmou que a atividade foi organizada por funcionárias do grupo, em parceria com trabalhadoras da diretoria de recursos humanos e do Centro de Saúde Comunitária, órgãos do corpo de gestão de pessoas da Unicamp. No texto, o grupo informou também que a escolha do tema levou em consideração a história da atividade, realizada anualmente, com o objetivo de fomentar o debate.


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