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Viola da gamba: som mágico no Castelo Ruspoli em Vignanello

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Brasil247

Todos os anos, no início de outubro, um concurso realmente singular de música barroca acontece no castelo dos príncipes Ruspoli, em Vignanello, província do Lácio, na Itália. Em 2012 aconteceu a 4ª edição do evento, e teve como protagonista a viola da gamba. Oásis foi lá conferir

 Por Luis Pellegrini, fotos de Lamberto Scipioni, de Vignanello

 O salão de concertos do Palácio Ruspoli em Vignanello,onde é realizado o concurso.

No início de outubro, na região do monte Cimino, Itália central, o outono começa a dar o ar da sua graça dourando as folhas das árvores. Mas o céu permanece azul, o Sol brilha intensamente e a temperatura permanece estável ao redor dos 23 graus.

Nesse momento privilegiado do ano, no borgo medieval de Vignanello, acontece o Concurso Internacional Príncipe Francesco Maria Ruspoli, especializado em música barroca. Este ano, já na sua 4ª edição, ele abriu suas portas para uma nova classe instrumental: a viola da gamba. O concurso, cujas atividades principais aconteceram nos dias 6 e 7 de outubro no Castelo Ruspoli de Vignanello, atribuiu a vitória à jovem violista francesa Mathilde Vialle. Em segundo lugar, o italiano Teodoro Baú, e em terceiro o romeno Soma Salat-Zakarias. Musicologia, a outra seção do concurso, teve como vencedora a espanhola Ana Lombardia Gonzalez, com o ensaio “Corelli as a model?: Composing violin sonatas in mid-18th ” century Madrid”.

Donna Giada Ruspoli (esquerda), a criadora do concurso, e Mathilde Vialle, primeiro lugar em 2012

“O objetivo da manifestação é reencontrar e expressar o genius loci (o espírito do lugar) que, em Vignanello e no Castelo Ruspoli é representado pela música, como sempre aconteceu em nossa família, sobretudo nos tempos do Príncipe Francesco Maria, no século 18”, diz Giada Ruspoli, princesa dessa casa pertencente à mais antiga nobreza romana. Idealizadora e mantenedora do concurso, Donna Giada, como todos a chamam, repropõe Vignanello como centro de estudo e difusão da música barroca em geral. Para gerir o concurso e as várias outras atividades culturais e artísticas ali desenvolvidas, ela fundou o Centro de Estudos e Pesquisas Santa Giacinta Marescotti, associação sem fins lucrativos com sede em Vignanello, no próprio castelo da família.

Repleto de labirintos feitos com sebes de buxinho, mirto e louro, o jardim do Castelo Ruspoli de Vignanello é um dos mais perfeitos e bem conservados jardins renascentistas à italiana de toda a Europa. Ao fundo, o castelo.

Como descrever a experiência de passar alguns dias repletos de boa música entre as paredes multisseculares desse castelo, visitando os seus salões decorados com uma sábia mistura de mobiliário moderno, barroco e renascentista, passeando por entre as alamedas do seu impecável jardim à italiana, comendo a ótima comida regional preparada sobre os grandes fogões das enormes cozinhas palacianas? Quando, sentados nos  salões, transitando pelos corredores, ou à sombra dos antigos carvalhos do jardim jovens músicos especializados na viola da gamba, provenientes de vários países, ensaiam superconcentrados, preparando-se para as provas do concurso? Sobretudo, quando a própria dona da casa, Donna Giada, se transforma em guia de exceção e lhe acompanha nas visitas aos recantos mais importantes do castelo, dando de cada aposento, de cada quadro, de cada escultura explicações que só quem é da família é capaz de dar?

  Uma ponte de pedra passa sobre o fosso de proteção e leva do castelo ao jardim. Como todos os castelos importantes construídos naquela época, o de Vignanello é totalmente fortificado e tem apenas duas entradas defendidas por pontes levadiças.

A capela do castelo, por exemplo. Ela guarda entre seus tesouros as roupagens e algumas relíquias de Santa Giacinta Marescotti, santa de verdade, outrora princesa da família, que nasceu e viveu no castelo de Vignanello no século 17 antes de se tornar religiosa. “Jacinta, na juventude, não demonstrava nenhuma vocação para monja. Bem ao contrário, apreciava a vida mundana, as festas e o luxo. Até mesmo depois de enclausurada num convento franciscano fazia questão que seus aposentos fossem requintados”, explica Donna Giada. “Após uma doença que quase a levou à morte, ela mudou. Abraçou com fervor a vida monástica, trocou a soberba pela paciência e a ambição pela humildade. Tornou-se devota e até fervorosa. Mas salientou-se sobretudo na caridade, cheia de delicadeza e ternura para com as irmãs e para com a população de Viterbo, a quem Jacinta socorria em todas as necessidades”, prossegue, enquanto aponta para uma vitrine onde estão guardados, entre outras peças, o hábito monástico e um pequeno açoite que sua antepassada usava para autoflagelar-se. “Claro, a santidade não é fácil de ser alcançada”, completa Donna Giada.

 Os príncipes Giada Ruspoli e Francesco Ruspoli durante a entrega do prêmio de musicologia à espanhola Ana Lombardia Gonzalez (ao centro).

Os grandes jardins do castelo também são alvo de suas explicações: “Nosso jardim é um típico exemplo de jardim à italiana da época renascentista, muito ordenado e caracterizado por cercas-vivas de buxinho, louro e mirto, esculpidas em várias formas decorativas que delimitam as doze áreas no centro das quais está uma grande fonte”. Aproxima-se Santino, que há mais de 40 anos é administrador faz-tudo do castelo Ruspoli, e completa a descrição: “As sebes de buxinho e mirto são as mesmas desde a construção do jardim, no século 16. São plantas de crescimento muito lento, que precisam apenas de uma poda ao ano. Quando chega o momento da poda, nada de tesouras ou podadeiras elétricas: usamos uma simples foice de mão, como sempre foi feito!”

Entrada principal do Castelo de Vignanello. Ele fica no alto de uma colina ao redor da qual foi erigido o borgo medieval.

O castelo Ruspoli é uma típica construção fortificada erigida em pedra, no estilo tardo medieval e renascentista, cercado por um fosso profundo e com duas entradas, pelas quais se passa através de pontes levadiças. Está aberto à visitação pública aos domingos. Um dos seus aspectos mais interessantes, e que contribui para a sua raridade, é que ele é mantido como uma residência de família, e não como um museu. O enorme edifício mantem dessa forma um ar de coisa habitada, viva, usado também para cerimônias, conferências, casamentos e banquetes, sobretudo nos espaços do jardim. Quem tiver interesse pode encontrar todas as informações no site: www.castelloruspoli.com

  Da esquerda, os violistas Teodoro Baú, Mathilde Vialle e Soma Salat-Zacharias, respectivamente segundo, primeiro e terceiro prêmios do Concurso Ruspoli. As apresentações dos concorrentes são realizadas no salão de recitais musicais do Castelo de Vignan

 A história dos Marescotti-Ruspoli, família da princesa Giada Ruspoli, é uma saga relatada em vários livros e registrada nos anais do Vaticano, que se inicia no século 8 d.C., com Carlos Magno. “Somos uma família papal”, diz com naturalidade a aristocrata, que tem no sangue 15 papas e uma árvore genealógica enraizada na alta nobreza italiana e europeia. Morando entre o Brasil e a Itália há 35 anos, Giada é filha de Don Sforza Vicino Ruspoli e Donna Domitilla dei Duchi Salviati (“família ligada aos Medici de Florença”), é Matarazzo pelo lado paterno (“minha avó Claudia era a caçula do Conde Francisco Matarazzo”). Casada com o paulistano Lulli Misasi e mãe de dois rapazes ítalo-brasileiros, Marco e Paulo, Giada Ruspoli se dedica a unir os dois países da família, Itália e Brasil, estreitando seus laços culturais.

  Durante almoço no jardim do castelo de Vignanello, a paulista Maria Elizabete Prata Carvalho (esquerda), Luis Pellegrini e Lamberto Scipioni.

“O concurso de música barroca no Castelo de Vignanello, bem como a maior parte dos eventos que organizei no Brasil e na Itália, podem ser encaixados dentro de uma tradição muito antiga de mecenato cultural e artístico que desde sempre foi mantida por minha família”, diz Donna Giada. “Só para recordar, no século 18, meu antepassado o príncipe Francesco Maria foi mecenas de grandes talentos como Georg Friedrich Handel, Scarlatti (pai e filho), Hotteterre le Romain, Antonio Caldara e os poetas da Academia da Arcádia”.

Handel viveu muitos anos na Itália, passando inclusive por Roma, onde conheceu o Príncipe Francesco Maria Ruspoli. Foi hóspede várias vezes no Castelo de Vignanello, e nele compôs e executou várias obras, dentre as quais a Ressurreição, a Salve Regina, e mais de cem cantatas.

  Ana Elisa Sestini, também paulista aproveitou uma folga do concurso para visitar o ‘Jardim dos Monstros’, no vizinho borgo de Bomarzo.

As audições do concurso são realizadas no mesmo salão nobre onde Handel e tantos outros compositores do período barroco executaram suas obras. “É difícil explicar o que significa para nós, músicos, tocar no mesmo espaço, sentar talvez na mesma cadeira em que sentou e tocou Handel, Caldara e tantos outros”, comenta a violista francesa Mathilde Vialle, a vencedora da 4ª edição do concurso. “Não é certamente a mesma coisa que tocar no palco de um grande teatro moderno, por mais bonito que ele seja. Em Vignanello, quando seguro minha viola da gamba, tenho o sentimento que todos esses monstros sagrados da música barroca permanecem ali, sentados à minha frente, atentos ao que irei fazer. É de arrepiar”.

  Príncipe Sforza Ruspoli (esquerda), atual patriarca da dinastia, e Luis Pellegrini conversam no jardim do Castelo de Vignanello.

A empresa, no entanto, não é fácil para os músicos, e muito menos para a idealizadora do evento. Exige de Giada Ruspoli e de sua pequena equipe (além da princesa, dela faz parte Manola Erasmi, uma outra faz-tudo, e o maestro Giorgio Monari, da Universidade La Sapienza de Roma, que é o diretor artístico do concurso) muito esforço ” e muita despesa. “Temos de fazer tudo com nossas próprias mãos e fundos próprios”, ela revela. “À parte uma preciosa contribuição de Paulo Gala e Eliane de Castro, que são queridos amigos brasileiros (Paulo é dono da rede de restaurantes Galeto) não tenho nenhum outro patrocínio”.

E no Brasil, por que não fazer algo similar aqui? “Estou cada vez mais entusiasmada com a ideia de organizar no Brasil um evento similar ao concurso de Vignanello. Vivemos um momento brasileiro muito interessante em termos de interesse pela música erudita, não apenas por parte dos profissionais da arte mas também pelo grande público. Assim que voltar a São Paulo, em dezembro, vou mais uma vez arregaçar as mangas e por mãos à obra. Toda ajuda será bem vinda!”

  O borgo medieval de Vignanello está repleto de ângulos como o da foto.

No domingo, durante a entrega dos prêmios e o recital de música para viola da gamba tocada pelos premiados (confira no vídeo), os olhos de Donna Giada brilhavam com uma luz especial. O desafio fora enfrentado e, mais uma vez, vencido. A mesma luz estava nos sorrisos dos jovens músicos, premiados ou não, e do público presente. O concurso de Vignanello é viagem a um tempo e a um espaço onde a arte do ritmo, da melodia e da harmonia era também uma filosofia e uma religião. Tomara que algo dessa empreitada tão enriquecedora para a alma chegue mesmo também ao Brasil, pelas mãos de Donna Giada Ruspoli. E de quem mais quiser participar.

 Info: [email protected]

No vídeo abaixo, trecho do recital dos três vencedores do Concurso Ruspoli para viola da gamba.



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