Brasil Notícias

Soco em mulher, tiro nas costas: PM reprime estudantes em SP

[mp_script_post_header]

Uma estudante de 24 anos agredida com uma rasteira e com um soco na cara, um estudante de 22 atingido por uma bala de borracha nas costas, um repórter fotográfico ferido a golpes de cassetete na perna e até um instrumento musical alvo de uma bomba de gás lacrimogêneo: foi esse o saldo da ação da Polícia Militar de São Paulo, nesta sexta-feira, contra alunos e servidores da Universidade de São Paulo (USP). A PM agiu para liberar dois cruzamentos na região do Butantã (zona oeste da capital) e assustou não só os manifestantes, como comerciantes vizinhos à ação.

A manifestação, convocada pelo sindicato que representa os trabalhadores da USP (Sintusp), integrava o Dia Nacional de Paralisação, realizada em todo o País contra medidas consideradas ofensivas aos direitos trabalhistas – tais como a terceirização de atividades-fim, nas empresas, e mudanças no seguro desemprego. Há um mês, outra manifestação, também contra a perda de direitos trabalhistas, terminava com mais de 200 estudantes e professores feridos pela PM – mas no Centro Cívico de Curitiba.

No protesto de hoje, a PM lançou bombas de gás e de efeito moral logo após estudantes e servidores atearem fogo a pneus no cruzamento da rodovia Raposo Tavares com a rua Sapetuba. Antes, haviam acompanhado à distância quando os manifestantes trancaram o portão 1 da USP, a cerca de 500 metros da rodovia.

Ainda no cruzamento, durante a ação de dispersão da PM – que durou cerca de cinco minutos -, um estudante foi detido por dois policiais e imobilizado com uma chave de braço. Identificado como Carlos Alberto Santana Camargo, estudante de Ciências Sociais da USP, ele foi atendido no Pronto Socorro Bandeirantes antes de ser levado para o 34° Distrito Policial, na Vila Sônia.

“Fiquei atordoada”, diz mulher agredida com soco
A jovem agredida, estudante de Artes Cênicas, alegou receio de retaliações e preferiu não se identificar. Ela contou ao Terra que foi abordada quando tentava entregar um documento de identidade ao jovem detido. Com marcas de espancamento logo abaixo do olho esquerdo, ela foi ao 34° DP registra boletim de ocorrência contra a agressão. “Mas não sei dizer quem era o policial, nem quantos eram, porque eles estavam sem identificação na lapela. Tentei entregar o documento para o meu amigo, mas, quando vi, um PM me passou a perna e me derrubou. De repente, eu sentia os chutes – só vi depois, pelas imagens, o soco, de tão atordoada que fiquei”, relatou.

Frentistas de um posto na esquina das ruas Camargo e Sapetuba, a um quarteirão da primeira ação da PM, fecharam o estabelecimento alegando medo de explosão. “É perigo, aqui está cheio de material inflamável”, disse um deles. Mesmo assim,

a poucos metros do posto para dispersar os manifestantes – ali, sem pneus e sem fogo.

Técnico em manutenção, o ciclista Carlos Roberto Bispo, de 45 anos, reclamou do que avaliou como “repressão desnecessária”. “A polícia foi muito truculenta, não vi um único manifestante armado”, disse. Vendedor em um estacionamento vizinho, Fernando Cristensen, 26 anos, alegou “medo” para fechar, momentaneamente, o estabelecimento. “Foi absolutamente desproporcional o uso dessas bombas”, declarou, ainda em meio ao gás lacrimogêneo. Administrador do local, Carlos Mendes, de 58 anos, reforçou: “Não pode haver baderna, mas não precisava dessas bombas de efeito moral contra estudante. É perigoso e dá medo até na gente”, observou.

Diretor do Sintusp, Marcelo Pablito classificou a ação policial como “absurda”. “Não precisava de uma repressão dessas em um ‘dia nacional de mobilização’ que acontece no Brasil inteiro contra ataques aos direitos dos trabalhadores. No fim, a polícia acabou sendo uma signatária tanto do (governador Geraldo) Alckmin quanto da (presidente) Dilma (Rousseff) para atacar a greve, que é nada menos que mais um direito trabalhista que se tenta cercear”, avaliou.

Após o fim do protesto, parte dos manifestantes se reuniu no Sintusp, dentro do campus, para coletar os relatos de feridos. Dona de um instrumento de percussão atingido por bomba de gás, a estudante de Turismo Luana Matsumoto, de 20 anos, ironizou a mira do policial que disparou. “Ele me atingiu na nádega, e, em seguida, na percussão que eu segurava. Só fui perceber segundos depois, porque saía fumaça de dentro do instrumento. Pelo menos de mira, a PM está bem.”

Fotógrafo se identifica, mas é agredido
Também agredido, o repórter fotográfico Danilo Verpa, da Folha de S.Paulo, contou que acompanhava a manifestação quando policiais pediram para que todos se afastassem na altura da rua Sapetuba. Quando ele deixava o local, Verpa levou golpes de cassetete na perna esquerda.

“Eles [policiais] estavam muito nervosos; pedi calma, disse que era da imprensa e que estava trabalhando. O PM me disse que também estava trabalhando”, relatou. Verpa afirma ter registrado a imagem do agressor.

Durante a ação, a Polícia Militar ainda apreendeu o caminhão de som utilizado pelos manifestantes. Segundo diretores do SIntusp, a chave foi levada embora por uma PM e um dos vidros do veículo foi quebrado supostamente pelos PMs. Já o estudante detido, até a publicação desta matéria, ainda não havia acabado de depor no 34° DPx.

SSP diz que conduta de PMs será apurada
A reportagem procurou a assessoria de imprensa da PM, que delegou qualquer comentário sobre a ação de mais cedo à Secretaria de Segurança Pública do Estado. Em nota, a pasta informou que atuava desde cedo em manifestações pelo Estado “para que o impacto seja o menor possívem na rotina do cidadão”. Sobre o protesto da USP, a nota disse que, “preliminarmente, foram utilizados os meios necessários para que o cruzamento [da Raposo Tavares] não fosse fechado pelos manifestantes”. A nota resalva, porém, que, “no entanto, a conduta posterior dos policiais será objeto de apuração.”

Ainda conforme a SSP, um policial flagrado pela TV Globo atirando para fora de uma viatura foi afastado, pois o procedimento em questão foi totalmente irregular.”


Talvez você também goste