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Crítica | Vingadores: Ultimato, uma ótima viagem por 10 anos de Universo Marvel

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Quando a Marvel lançou, lá em 2008, o seu Universo Cinemático (MCU), a proposta parecia muito menos ambiciosa do que o resultado apresentado em Vingadores: Ultimato. Durante pouco mais de 10 anos, foi preciso acompanhar uma extensa lista de filmes e algumas séries para se ter a completude de conteúdo do universo dos heróis.

Não à toa, esse filme leva a palavra fim em seu nome (na versão em inglês, traz Endgame como subtítulo). Essa é a assinatura final desta primeira fase do MCU. Com isso, os diretores do longa, os irmãos Anthony e Joe Russo, sabiam que tinham dois desafios na trama.

Fique tranquilo: vamos tentar manter tudo longe dos spoilers.


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O primeiro é fazer com que o longa fosse denso o suficiente para agradar ao público mais experiente. Aquela pessoa que aplaude a aparição do personagem favorito, que fez a maratona de todos os filmes para o Vingadores final e que sabe cada pedaço dessa história contada em 10 anos de conteúdos.

Contudo, ele precisa ser leve e, em certa medida, didático para que os mais desavisados, mas que têm aquela simpatia por um bom filme de heróis, também possam aproveitar.

Neste ponto, Ultimato acerta em cheio. A trama toda gira em momentos de recapitulação, nos quais há espaço para aquele suspiro similar ao nostálgico (afinal, nostalgia se sente de um passado mais distante) do fã mais centrado, junto com uma boa dose de “tutorial” aos novatos.

A boa prática aqui é que isso funciona de forma muito, mas muito bem encaixada na trama, sem a necessidade de parar o filme para um flashback rápido. Aqui, não basta só entender o passado para seguir no futuro, mas mergulhar em 10 anos de história que este universo já nos proporcionou.

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Clima é tenso entre personagens após catástrofe de Guerra Infinita (Foto: Captura/YouTube)

O segundo ponto de dificuldade para os irmãos Russo estava em dar espaço de tela para todos os personagens do MCU, sem que isso soasse raso. Não que haja necessidade de contar o passado de cada um deles, isso já havia sido feito em seus próprios filmes de origem e continuações. Contudo, motivações novas podem ser necessárias para uma nova trama.

O ponto positivo é que Ultimato casa isso muito bem. A pergunta: ‘Por que raios este personagem está fazendo isso?’ não é algo que aparece com frequência nessa trama (embora aconteça).

A contrapartida aqui é que o filme ultrapassa as 3h de duração, não tão diferente de outros títulos de conclusão, como Senhor dos Anéis, por exemplo.

Catástrofe

Ultimato começa pouco tempo após os eventos de Guerra Infinita. Thanos juntou todas as Joias do Infinito e conseguiu dizimar metade dos animais do universo, o que inclui não só os humanos, mas os asgardianos e a população de outros planetas.

Este ponto é bem apresentado no filme, muito embora grande parte de tudo se passe ainda na Terra. Aqui, tal evento é considerado uma catástrofe, sendo que ruas seguem com carros batidos, lixo acumulado em todo lugar… enfim, uma sociedade que não soube lidar com o flerte do apocalipse.

Assim, é visível que o plano de Thanos de reduzir a população mundial pela metade não surtiu bem o efeito de garantir a prosperidade, como ele previa. A forma como ele vai lidar com isso? Bem, não avancemos para o campo dos spoilers.

A verdade é que Ultimato, sobretudo no início, tem um clima tenso, pesado, por vezes, até triste. Isso casa muito bem com o cenário de impotência dos personagens. Veja bem, pegue super-heróis, poderosos, reis do mundo, a quem foi prometido que nada é impossível e diga a eles que não há nada que se possa fazer. O que está feito está feito. A sensação de falta de poder bate mais forte em quem é, por essência, super-poderoso — e isso fica muito claro no filme.

O longa mostra como cada um dos personagens lida com o fim de metade do mundo, a morte de seus entes queridos e como é aceitar isso ou não. O Homem de Ferro é essencialmente um alcoólatra, não? Thor é um rei sem reinado? Capitão América, um soldado sem um campo de batalha?

Ritmo

Com 3 horas de duração, Ultimato precisou ser trabalhado de forma muito boa para não ficar cansativo. É preciso dizer que ele não faz isso de forma perfeita. O início, principalmente, traz momentos arrastados em que muito se explica ou planeja, mas pouco se executa.

É importante lembrar: o filme traz um mundo triste em reconstrução tentando assimilar a loucura que acabou de eliminar metade da população. Viver depois disso não deve ser fácil. Isso se faz aos poucos.

Contudo, Ultimato ainda é um filme de super-herói e, como tal, é feito para entreter, criar a torcida, e vez ou outra ainda arrancar umas boas risadas. A fórmula Marvel de diálogos leves em meio aos assuntos sérios para cortar aquelas bad vibes funciona muito bem aqui. Mais uma vez, a risada é estimulada de forma bastante orgânica, sem que o filme separe momentos para isso (afinal o tempo já é curto, aqui).

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Filme brinca com momentos mais leves (Foto: Captura/YouTube)

Assim, a trama demora a engrenar para um típico filme de herói, sendo que o ritmo toma corpo lá para mais de uma hora de tela — o que pode ser um empecilho para os mais desavisados.

Fora da curva

Um filme como Ultimato não pode se dar ao luxo de ser previsível. O longa teve trailers minuciosamente analisados por críticos de cinema, especialistas em quadrinhos e pelos fãs mais acalorados. Em suma, havia, pelo menos, uma dezena de teorias bastante convincentes sobre o que poderia acontecer nessa reta final.

Diante disso, os irmãos Russo apostaram em uma ideia difusa do imaginário popular. Se você está indo para o cinema achando que sabe exatamente o que vai acontecer no começo, meio e fim de Ultimato, pode ter uma excelente surpresa.

A trama trabalha com boas quebras de expectativa, tanto pontuais, com diferenças aqui e ali, quanto com momentos significativos do filme. Os irmãos Russo aproveitam de uma técnica da qual Rian Johnson lançou mão em Star Wars: Os Últimos Jedi: o chamado espaço negativo.

Este conceito se trata da tendência de nosso cérebro de preencher pontos não óbvios que foram deixados em aberto na trama. Ele é geralmente utilizado nas artes visuais, em que pinturas criam imagens inferíveis nos espaços em branco. Na literatura e cinema, o “espaço negativo” é toda sorte de pontos e conceitos que não foram escancarados e que podem ou devem ser inferidos pelo leitor ou espectador.

Com 10 anos de filmes de bagagem, amparado a uma boa gama de quadrinhos, é óbvio que o fã já sabe mais ou menos o que ele pode esperar (ou o que gostaria de ver em tela).

Aqui, mora o desafio dos irmãos Russo. Como em Os Últimos Jedi, fugir demais desta expectativa do fãs pode gerar mais críticas, com as quais a Marvel não gostaria de ter de lidar. Contudo, ser também muito óbvio pode fazer com que se tenha a sensação de 3 horas de um filme repetido.

Por conta disso, os Russo pegam nos conceitos criados no imaginário do fã da Marvel que eles sabem que podem quebrar. Nada de mexer nos dogmas, mas nas suas significações. Isso quer dizer que Thanos não vai deixar de ser vilão, mas, por exemplo, pode ser que apenas descer a porrada nele não seja o único objetivo do longa.

O filme inteiro se permite pequenas mudanças e ousadias até o limiar do aceitável. Seja na estética dos personagens, na forma como agem ou falam, ou até mesmo na solução do problema; tudo carrega consigo uma novidade.

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Personagens são apresentados com pequenas mudanças (Foto: Captura/YouTube)

É possível saber exatamente onde o filme quer chegar, mas como ele vai fazer isso é que o mistério bonito de Vingadores: Ultimato. A prova de que a jornada do herói pode ser mais importante que a conclusão de sua saga.

Mais HQ que nunca

Um ponto que pode ser obtuso em Ultimato é como ele é um filme de quadrinhos. Isso remete ao que a mídia tem de melhor e pior. No bom sentido, carrega consigo toda gama de extrapolações que os quadrinhos aceitam. Ou seja, toda ideia, por mais insana, louca e curiosa que possa parecer, tem chance aqui.

O tempo todo os personagens brincam com a loucura na qual o MCU se transformou. Por exemplo, a Viúva Negra aceita o fato de receber e-mails de um guaxinim, no caso, o Rocket Racoon, de forma verbalizada.

Este tom mais sarcástico mesmo mostra que o longa sabe a que veio: um filme de super-herói que não precisa necessariamente fazer sentido com a vida real, mas apenas com as próprias regras que este universo mesmo criou. É até bonito ver como o filme se entende enquanto filme, e que não quer ir além disso.

O ponto negativo é que, tal qual uma HQ, quando tudo pode acontecer, sendo que o efeito Deus Ex Machina aparece em cheio. A quem não conhece o conceito, este é um recurso em que os roteiristas colocam uma solução sem motivo aparente para uma situação mostrada como insolúvel.

Isso acontece com certa frequência em Ultimato. A sequência de fatos aparece com uma cadência perfeita para que o enredo se guie para o que é necessário acontecer. Em uma das cenas, uma casualidade, daquelas bem raras, dispara o aparecimento de um personagem chave para a trama, por exemplo. Tirando isso da telona, parece pouco plausível que a história se desenrolasse daquela forma.

Outra questão é como o filme abre mão da lógica (até mesmo criada pelo seu próprio universo) em prol de criar cenas impactantes. É possível que você se pegue perguntando “o que esse cara está fazendo aí?” ou “para onde este pessoal está indo?”, já que os detalhes da cena fazem pouco sentido. Contudo, isso tem o objetivo claro de deixar tudo mais dramático e épico.

Em um momento do filme, o grupo dos Vingadores está fazendo um mega experimento de uma tecnologia nova e revolucionária e o cenário para isso é o jardim da base dos Vingadores. Veja bem, eles contam com um laboratório completo para isso mas resolvem fazer tudo ao ar livre. Para quê? Pois a cena seguinte envolve um tom pesado de nostalgia e isso fica muito mais bonito quando os personagens estão sentados em um banquinho em frente a um lago.

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Ultimato cria momentos de tensão cirando a expetativa de mortes o tempo todo (Foto: Captura/YouTube)

Há uma meia dúzia de momentos em que você questiona a lógica do que está acontecendo, mas isso é respondido claramente na cena seguinte: “ok, é para tudo ficar mais bonito e impactante”.

O ponto é que funciona. Mesmo que haja gente demais em uma batalha que parece ser mais intimista. Ultimato sabe, assim como Guerra Infinita, que é preciso colocar todo mundo em uma grande disputa campal, típica da Primeira Guerra Mundial, pois isso cai muito bem para um filme de herói.

Assim, todos os pequenos defeitos que este Vingadores traz é uma contrapartida em criar o ambiente perfeito, em temperatura e pressão, para que os personagens possam ser os mais grandiosos, com as cenas mais épicas do cinema atual.

Mais uma vez: isso funciona de forma magnífica. Afinal, este é um filme de super-herói.

Veredicto

Vingadores: Ultimato, como se era de esperar, é um filme muito bem pensado (minuciosamente) para levantar os pelos dos braços e verter algumas lágrimas nos momentos certos. Os irmãos Russo se mostram muito capazes de brincar com os sentimentos dos espectadores, da forma mais leve possível, para que você saia do cinema com um leve pesar, querendo mais daquele universo.

A boa notícia aqui é: não há nada no filme que possa estragar a experiência. Nem mesmo os trailers. Os diretores jogam de forma muito segura, com uma pitada de ousadia em alguns momentos, mas sem fugir da fórmula criada pela Marvel.

Assim, a quem é fã da série, pode esperar um filme memorável. Se você está indo só pela diversão, mas não mergulhou no universo, pulando um longa aqui e outro ali, fique tranquilo, este filme também é para você.

Vingadores: Ultimato estreia dia 25 de abril nos cinemas brasileiros.

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Fonte: Canaltech


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