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A maioria dos indígenas do Brasil vivem em centros urbanos, onde convivem com o preconceito cotidiano. Dos cerca de 1,7 milhão de indígenas no país, 914 mil estão nas cidades, segundo o IBGE. Mesmo com a convivência no dia a dia, muitos ainda têm a identidade questionada e encontram uma visão estereotipada, como se a cultura indígena estivesse apenas em livros e histórias em quadrinhos.

Brasília tem um território indígena demarcado dentro da cidade: o Santuário dos Pajés. Ele fica ao lado do setor Noroeste, bairro de alto padrão que foi construído em cima de parte da antiga área do santuário. Liderança do local, Márcia Guajajara, conta que basta sair do território para ir a um comércio vizinho para o preconceito aparecer:
“Quando a gente chega num lugar, as pessoas ficam olhando assim, como se você fosse um morador de rua que está entrando num espaço que não é seu. Eu mesma parei de andar na Caixa, que era a lotérica, né? Toda vez que eu ia lá, a mulher nunca me via. Um dia me estressei e tive que falar o que eu estava sentindo para ela. E aí, nesse dia, falei: “Ah, não vou mais não, vou voltar lá para a Asa Norte”. Faço minhas coisas tudo na Asa Norte. Aqui no bairro é muito difícil eu andar”, aponta.
Para ela, esse preconceito não é ignorância; ele é transmitido de geração para geração:
‘”Eu recebo criança aqui de 6, 7 anos… a criança fala: “Você tem índio? Tem celular?”. Índio não pode ter? Então ele já trouxe do pai dele, né?”, diz.
Filho de Márcia, Fêtxawewe Tapuya Guajajara, é sociólogo e professor. Ele conta que na sala de aula, pela curiosidade dos alunos, precisa falar sobre a cultura e o movimento indígena antes de conseguir entrar na matéria:
“Depois eles começam a entender melhor, e aí querem aprender alguma palavra, alguma coisa. Eu falo: “Ah, se você aprendeu meu nome, você já aprendeu aí três palavras”. Que é diferente do corpo docente no geral, né? Porque tem professores que chegam assim que têm, carregam um discurso muito preconceituoso. E são termos, por exemplo, chamar de “índio”, falar “tribo”, “selvagem””, diz.
Quando foi estudante, Ytawanay Fulni-ô e Kariri Xocó sentiu o preconceito das outras crianças na escola:
“Chegava dia que eu falava: “Minha mãe, não vou para a escola”, porque todo dia eu ia para a escola e brigava com o povo, porque eles ficavam falando que índio não tomava banho, que nós comia carne de gente, e que não era para índio estar na cidade, que lugar de índio era no mato’. ‘E aí, no ensino médio, foi ficando pior porque era até de professores que a gente sofria preconceito”, diz.
Hoje, Ytawanay tem dois filhos pequenos. O mais velho, de 4 anos, já está na escola e se dá bem com os alunos e professores, e a ideia dos pais é que cresça com orgulho de ser quem é:
“O pai dele estava ensinando para ele, falando para ele: “Quando você chegar na escola e perguntarem seu nome, você vai falar: ‘Eu sou Sotsa e eu sou Fulni-ô'”. Para ele sempre ter orgulho de dizer que é índio, aonde ele chegar ele tem que ter orgulho de dizer que é índio, independente do preconceito que ele sofrer”, relata.
Fêtxawewe vê o racismo estrutural apoiado no estereótipo reforçado em livros e imagens quando questionam a identidade indígena. Uma visão ultrapassada que não percebe outras posições que ocupam na sociedade hoje, como médicos, advogados e até ministros:
“É sempre aquele lugar do exótico, do diferente, do selvagem. Então, não é só uma pessoa, um atendente de algum estabelecimento. Isso é no meio acadêmico, é no meio político, é em qualquer meio que tenha algum indígena ocupando, tem essa visão. E aí sempre vem esse questionamento: “Ah, mas não é indígena de verdade”, ou aquele ditado do “indígena puro””, fala.
O Santuário dos Pajés é história de resistência para sobreviver frente à expansão imobiliária, manter as tradições, as crenças e o modo de vida mesmo dentro da cidade.
*Com produção de Beatriz Evaristo
Gabriel Brum* – Repórter da Rádio Nacional , Feed Editoria Radioagência Nacional.
Fonte: Agencia brasil EBC..
Sun, 19 Apr 2026 07:07:00 -0300



