Libertadores

Entre inflação e tática, ausência da Argentina na final da Libertadores é retrato latino-americano

Quem vai à Argentina procura tango. Busca a arquitetura inigualável de Buenos Aires, as montanhas de Mendoza, a natureza do Mar del Plata e a neve de Bariloche. Mas quem atravessa a fronteira dos nossos vizinhos também vai atrás da historicidade futebolística do país que deu Diego Maradona e Lionel Messi ao mundo.

A nação que produziu alguns dos torcedores mais fanáticos de todos os tempos. A população responsável por fazer o chão de La Bombonera tremer, assim como os adversários que lá estão. O povo que fez o River Plate ganhar status mundial e que, hoje, luta para se acostumar com a condição de coadjuvante no continente que ele mesmo dominou.


Odisseia do enfraquecimento

As finais dos principais torneios do continente vão acontecer sem times argentinos. Embora isso possa ser entendido como circunstâncias comuns de uma temporada fraca em termos técnicos, a ausência é sintoma de questões muito mais profundas. Problemas esses que têm cor, peso, cheiro e talvez até representem mais do que deveriam: dinheiro.

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Argentina atravesse uma intensa crise financeira | SOPA Images/GettyImages

Você não precisa ser nenhum gênio da economia – até porque nós também não somos – para saber que a inflação influencia diretamente no aumento dos preços. Qualquer pessoa que pisou num mercado brasileiro entre 2020 e 2021 observou uma diferença gritante – quase no sentido literal da palavra – nos preços praticados.

Em outubro deste ano, a inflação oficial do país acumulada nos últimos 12 meses atingiu marca de 10,67%. O impacto disso está no seu cotidiano: aumento do aluguel, poder de compra reduzido, incerteza quanto ao futuro, desestímulo aos investimentos, entre outros. E se esse índice fosse quase cinco vezes maior? Bem, agora você entende um pouco da realidade da Argentina.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), a inflação acumulada nos últimos 12 meses chegou a 52,1% nos nossos vizinhos. “O que a gente está vendo na Argentina é uma desvalorização, ou seja, os investidores querendo tirar o dinheiro de lá. Ninguém está querendo investir no país“, explica Caio Cobo, economista que bateu um papo conosco.

Por quê? Tem muito risco. A inflação está descontrolada, desemprego elevado, atividade econômica fraca e ainda tem muitos impactos da pandemia“, completa. Apenas para efeito comparativo, checamos a desvalorização da moeda local frente ao real, dólar e euro. No dia 18 de novembro de 2021, um peso argentino valia 0,055 real, 0,0100 dólar e 0,0088 euro.

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Pandemia teve muitos efeitos na economia local (e mundial) | Ricardo Ceppi/GettyImages

Mas, afinal de contas, qual a relação dessas estatísticas com o futebol? Em uma palavra só: tudo. Não muito distante do que é feito dentro das quatro linhas, da genialidade dos treinadores na área técnica e da paixão efervescente dos torcedores nas arquibancadas, o esporte mais popular do mundo é tão empresarial quanto um prédio corporativo bem no centro da Faria Lima.

Então, ao passo em que a economia argentina parece prestes a desabar, os times do país inevitavelmente vão seguir a mesma tendência. “Se o peso argentino está se desvalorizando você perde competitividade“, analisa Cobo. “Quando você vai buscar uma nova contratação fora do país com uma moeda desvalorizada você tem que gastar mais pra conseguir comprar. Você vai oferecer um milhão, dois milhões de dólares e isso vai ser muito mais caro“, detalha.

E o que acontece quando as próprias pratas da casa decidem partir rumo aos campeonatos mais endinheirados? Como se manter competitivo no seu continente quando não há contratações expressivas e os potenciais talentos não param de se despedir? Esse dilema nossos hermanos ainda não conseguiram responder.

Em 2016, cinco anos atrás, havia 26 jogadores argentinos na Major League Soccer (MLS), o torneio nacional de futebol norte-americano. Hoje, há 45. E a lista em breve deverá ficar maior. Thiago Almada, destaque do Vélez Sarsfield de apenas 20 anos, acertou sua transferência rumo ao Atlanta United. Caso queira lançar mão de outra interpretação, basta olhar para a Série A do Brasileirão, que abriga 17 hermanos em 2021. Os dados são do Transfermarkt.

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Thiago Almada, destaque do Vélez Sarsfield, vai jogar na MLS | Marcelo Endelli/GettyImages

Querendo ou não os jogadores hoje têm a visão do ganho em dólar. Então ele vai olhar pra moeda e vai ter muito time, por exemplo da MLS, que vai olhar para esses atletas que estão indo bem na Argentina, vão fazer uma proposta e aí esse jogador não vai querer ficar no paísCaio Cobo ao 90min

O maior impacto [da economia] pras instituições esportivas é uma perda de competitividade, porque você não consegue atrair talentos e nem reter esses jogadores que você tem na equipe“, opina Cobo. Nem a Lei de Murphy seria tão cruel…


As Veias Abertas da… Argentina?

Casa Rosada, Obelisco, Praça de Maio e, mais uma vez, tango. Quando falamos na República Argentina, todos os caminhos levam a Buenos Aires. A linha de raciocínio não está equivocada. Falando em termos futebolísticos, a capital, apesar das turbulências financeiras, ainda concentra os principais clubes locais.

Diferentemente da configuração brasileira, o país atualmente presidido por Alberto Fernández é composto por 23 províncias mais a Cidade Autônoma De Buenos Aires. Na capital, estão cinco das equipes mais valiosas do Campeonato Argentino em 2021: River Plate, Boca Juniors, Vélez Sarsfield, Lanús e Independiente. O que sobra para as províncias consideradas menores? A condição de zebra.

Durante os três anos nos quais o torneio nacional foi organizado como Superliga, o trio de campeões – Boca Juniors (duas vezes) e Racing – reforçou o domínio de Buenos Aires. Agora, sob a nova configuração de Liga Profissional de Futebol – ou LPF, como é comumente chamada –, o River Plate está próximo de levantar mais uma taça. A superioridade também é vista nas cifras.

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Essas províncias [menores] tendem a ter uma atividade econômica mais fraca, bem menos dinâmica, com menos empresas“, explica Caio. E, num cenário já permeado pela crise financeira e pandêmica, a tendência é que os clubes sediados fora de Buenos Aires sofram ainda mais. Aliás, entre os 10 times com maior valor de mercado total na temporada 2020/21, somente dois estão fora da capital: Talleres e Cólon.

Em contrapartida, Millonarios e Xeneizes, mesmo com elencos substancialmente menos estrelados que outrora, seguem dividindo o protagonismo de popularidade e dinheiro no torneio nacional vizinho. “As empresas querem patrocinar grandes marcas. River Plate, Boca Juniors, times que sempre estão chegando lá. Embora não estejam com o time mais forte, sempre vão estar brigando nas cabeças“, ressalta o economista.

A questão esportiva tende a ser cada vez mais desigual: os mais fracos ficando mais fracos e os mais fortes ficando mais fortes. Justamente porque quem é maior vai conseguir, por exemplo, tirar o camisa 10 do time menorCaio Cobo ao 90Min

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Nacho Fernández, ex-River Plate e atualmente no Atlético-MG, teve parte da sua formação de base no Gimnasia La Plata | Pool/GettyImages

730 dias de solidão

Quando falamos na ausência de hermanos na final da Copa Libertadores precisamos retomar não um, mas dois anos. O último tango dos argentinos na decisão aconteceu em 2019, ano em que a Glória Eterna coroou o trabalho de Jorge Jesus e castigou Marcelo Gallardo com o amargor de um vinho da pior qualidade – e olha que nossos vizinhos são especialistas no assunto.

Como explicar tamanho enfraquecimento? A economia responde parte da pergunta, claro, mas o futebol sempre foi uma via de mão dupla na qual dinheiro e tática são companheiros inseparáveis – mesmo que nem sempre em sintonia. E, no âmbito técnico, há muito o que ser dito sobre o nível do Campeonato Argentino.

Acho que o nível do futebol argentino diminuiu nos últimos anos. Com exceção do River, que conseguiu manter a regularidade com Gallardo, as demais equipes não são competitivas pensando no continente. Por um lado, os poucos jogadores que surgem são rapidamente vendidos ao exterior e, por outro, os principais times da América do Sul cresceram“, defende Hernan Horovitz, editor de conteúdo do 90min em espanhol.

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Marcelo Gallardo e Julián Álvarez, dois dos principais destaques do River Plate em 2021 | ALEJANDRO PAGNI/GettyImages

Dentro das quatro linhas, aliás, as questões táticas ganham contornos ainda mais preocupantes se pensarmos nas nem sempre justas comparações: “É difícil encontrar partidas atraentes para o espectador e a diferença entre o futebol que se vê nos gramados argentinos e o europeu está se tornando cada vez mais perceptível“, completa Horovitz.

Se o paralelo entre continentes parece distante demais – afinal, há quilômetros de oceano entre a América do Sul e a Europa -, você pode encontrar diferenças significativas no próprio futebol latino-americano. Para Benjamin Barzi, fanático torcedor do River Plate, uma das principais distinções pode ser vista na questão da estrutura.

O Brasileirão tem uma organização fenomenal. Há campeonatos e Copas de diferentes localidades, enquanto aqui [na Argentina] está tudo deseixado e as coisas estão sempre mudando“. Ele não está errado – em partes, pelo menos. Nos últimos 10 anos, o torneio nacional vizinho passou por sete mudanças no que diz respeito ao formato de disputa, número de clubes ou calendário.

A movimentação mais recente foi adotada ainda em 2020, quando a Superliga Argentina chegou ao fim depois de três precoces anos, sendo substituída pela LPF. Por outro lado, enquanto há um acúmulo preocupante de alterações burocráticas, algo permaneceu inalterado mesmo no efêmero mundo moderno: o poder da torcida local.

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Torcida argentina está entre as mais fanáticas do mundo | ALEJANDRO PAGNI/GettyImages

Da capacidade de fazer o chão tremer ao poderio de mudar o enredo de partidas inteiras, os hermanos se estabeleceram entre os torcedores mais fanáticos do mundo. Deixando quaisquer estatísticas de lado nesse momento, podemos com toda certeza dizer que o universo futebolístico definitivamente não seria o mesmo sem o Superclásico.

E, diante do contexto, não é exagero dizer que os estádios vazios ditaram um ritmo melancólico demais nos últimos dois anos. Uma sinfonia taciturna pode até combinar com tango, mas jamais com a modalidade mais popular do mundo. “Um clássico sem torcida não é a mesma coisa. Perde a mística“, aponta Barzi.

Enquanto esperam por um milagre de proporções bíblicas para salvar as finanças do país, os argentinos tentam a sorte e se apegam aos feitos de outrora. “Historicamente o Boca (e ultimamente também o River) sempre foi capaz de vencer seus adversários brasileiros, mesmo apesar das diferenças. Teremos que ver o que acontece no próximo ano“.

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Decisão da Libertadores 2021 terá Flamengo e Palmeiras como protagonistas | EITAN ABRAMOVICH/GettyImages

Se o raio que deu Maradona e Messi ao mundo foi capaz de cair duas vezes no mesmo lugar, o Campeonato Argentino certamente terá forças para se reerguer. Afinal, vários motivos tornam a glória verdadeiramente eterna. E a tradição está entre eles.

Fonte: 90min