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Estresse na pandemia | Pesquisa investigará os efeitos da cannabis em médicos

Estresse na pandemia | Pesquisa investigará os efeitos da cannabis em médicos - 1

Lidar com os medos e inseguranças trazidas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) não é fácil, muito menos quando se está na linha de frente para conter os avanços da COVID-19, como é o caso da maioria dos profissionais da saúde. Diante desse cenário muito estressante, o Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) autorizou uma das mais abrangentes pesquisas nacionais para avaliar os efeitos da cannabis no tratamento de transtornos do humor.

A pesquisa Impacto do óleo integral de ​Cannabis na saúde mental de profissionais da linha de frente no combate a COVID-19 vai recrutar 300 voluntários, entre médicos e enfermeiros de todo o país, que lidam com o difícil cotidiano no atendimento aos infectados pelo patógeno.

No estudo clínico, os pacientes receberão doses do óleo integral de cannabis, com concentração de 100 mg/ml de canabidiol (CBD) e baixos índices de THC, que é a substância psicoativa da planta. Ou seja, a princípio, o experimento não deve comprometer o trabalho diário dos investigados.


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“A aprovação dessa pesquisa é um marco para a medicina canabinoide no Brasil. Os efeitos ansiolíticos da cannabis são reconhecidos e bem documentados entre os especialistas da área e agora poderemos extrapolar esse universo. Com o estudo, esperamos sanar algumas dúvidas científicas ao aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos moleculares e bioquímicos que fazem da cannabis uma opção eficaz e segura no tratamento dos transtornos de humor, principalmente ansiedade e estresse”, afirma o professor Erik Amazonas de Almeida, pesquisador responsável pela iniciativa, para o blog CannabiZ, da Veja.

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Estudo de Santa Catarina vai investigar como a cannabis pode auxiliar profissionais da saúde durante a epidemia da COVID-19
(Imagem: reprodução/Cidadania)

Como vai funcionar?

Para avaliar os efeitos da substância, o projeto vai contar com diferentes protocolos de investigação entre os grupos, como estudo randomizada, duplo-cego e controlada por placebo. No último modelo, nem os médicos e nem os pacientes (também médicos e enfermeiros, nesse caso) saberão quem tomará o medicamento e quem receberá a substância inócua. Dessa forma, os resultados terão um grau de confiança de 95%.

Além disso, os medicamentos à base de cannabis usados serão produzidos pela Associação Brasileira de Apoio a Cannabis Esperança (ABRACE), com sede em João Pessoa (PB). É essa associação que também fará o cadastramento e a seleção dos voluntários no mês de julho do estudo que começará em agosto, a partir das fichas de inscrição enviadas.

Nessa pré-seleção, os organizadores estimam o recebimento de mil inscrições para as 300 vagas finais. Para isso, será levado em conta o histórico de saúde do paciente, seu perfil sociodemográfico e seu grau de envolvimento no combate à pandemia e, principalmente, o grau de estresse autodeclarado de cada um deles. É importante esclarecer que não serão aceitas grávidas, lactantes e pessoas com condições psiquiátricas pré-existentes, excluindo quadros de estresse e ansiedade, que serão objetos da investigação.

Investigação dos efeitos

Para a avaliar os efeitos da substância, os pacientes serão avaliados, de forma regular, pela equipe responsável em consultas remotas, via telemedicina. Além disso, deverão responder sempre um questionário autoadministrado. “É muito positivo ver a comunidade científica mudando a sua percepção sobre a cannabis. A própria autorização para a realização da pesquisa demonstra que há, enfim, o reconhecimento do potencial terapêutico da planta na promoção de saúde mental”, esclarece o farmacêutico Murilo Chaves Gouvêa, membro da ABRACE e um dos coordenadores do estudo.

Para o doutor Erik Amazonas, controlar o estresse e a ansiedade dos profissionais que estão na linha de frente do combate à pandemia significa salvar vidas. “Esses médicos e enfermeiros têm reportado esgotamento não apenas físico, mas também psicológico. Eles precisam tomar decisões críticas em questão de segundos e, para isso, precisam estar em pleno gozo de sua saúde mental”, explica o pesquisador. Isso porque muitos têm enfrentado situações limítrofes, que podem levar ao burnout e até suicídios.

Os resultados também podem ajudar na popularização do uso da cannabis por médicos que tratam esses transtornos. “Os ansiolíticos e antidepressivos estão entre as classes de medicamentos mais receitados no mundo. A cannabis pode sim ser uma opção para esses tratamentos, com eficácia, segurança e com menos efeitos colaterais. É isso que pretendemos demonstrar com essa pesquisa”, completa.

Para quem tiver interesse na pesquisa da UFSC, a ficha de inscrição pode ser acessada clicando aqui.

Fonte: Canaltech