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Game of Thrones da vida real: a guerra que inspirou a série da HBO

Game of Thrones da vida real: a guerra que inspirou a série da HBO - 1

O inverno chegou, e a Longa Noite está acabando: no próximo domingo (18) a HBO irá transmitir o último episódio de Game of Thrones, colocando um ponto final na série que foi um dos grandes fenômenos culturais dos últimos anos e muito provavelmente a última série de TV em que nos reunimos em volta do aparelho e sentimos a necessidade de assistir ao episódio no momento em que ele é transmitido.

O fim de Game of Thrones é um marco não apenas para a TV — pois é o fim da produção mais cara e expansiva já produzida para a mídia — como também o possível fim de um modo de assistir TV, em que nos sentíamos compelidos a, em determinado dia e hora, parar tudo que estivéssemos fazendo em nossas vidas e dedicar a próxima hora olhando atentamente para aquela tela. Por isso, durante as próximas duas semanas, faremos uma série de matérias especiais aqui no Canaltech sobre Game of Thrones como forma de nos prepararmos para o fim e entendermos as implicações que as escolhas tomadas pela série terão para os potenciais livros que George R.R. Martin ainda irá lançar.

AVISO DE SPOILER: Esta matéria pode conter spoilers das sete primeiras temporadas de Game of Thrones. Então, se você não está em dia com a série, proceda com cautela.


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Baseado na série de livros A Canção de Gelo & Fogo, Game of Thrones é, sem dúvidas, uma série de fantasia: afinal, estamos no mundo em que a magia pode tanto matar alguém como ressuscitá-la dos mortos, onde há dragões do tamanho de ônibus voando e cuspindo fogo por aí, e o qual é ameaçado por um exército de zumbis. Então, sim, Game of Thrones é uma história de fantasia. Mas, para muitos fãs, esse nem é o ponto mais interessante da série ou dos livros, mas sim a complexidade da narrativa, que foge dos temas maniqueístas da maioria das histórias clássicas de fantasia e nos apresenta a um jogo de intrigas políticas onde todos os personagens operam em “tons de cinza”, nenhum deles sendo totalmente mau ou totalmente bom — muito mais parecidos com qualquer pessoa real que conhecemos do que com aquela ideia que possuímos de “heróis” e “vilões”. Mais do que os elementos de fantasia, podemos claramente afirmar que foi essa complexidade que fez os livros figurarem durante anos na lista das obras de ficção mais vendidas doThe New York Times e que fez com que a série da HBO se tornasse o fenômeno global que é hoje.

Mas, assim como na natureza, a arte também segue a famosa regra de Lavoisier, onde “nada se cria, tudo se transforma”. Claro, essa complexidade toda das intrigas familiares pelo trono e personagens que não se encaixam no estereótipo típico de heróis e vilões se parece com o tipo de coisa que vemos no mundo real porque, basicamente, foi inspirado no mundo real. E, ainda que Martin não tenha se inspirado apenas em um único evento ou uma única parte da história do mundo para criar Westeros e toda a narrativa de Game of Thrones, o próprio autor admite que existe um evento real que serviu de “linha mestra” para sua história e que inspirou muitos dos personagens e tramas que existem nela: a Guerra das Rosas.

Game of Thrones da vida real

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À esquerda, a rosa vermelha símbolo dos Lancasters, e à direita a rosa branca símbolo dos York (Imagem: World Atlas)

 

A Guerra das Rosas foi uma série de lutas entre duas famílias (os York e os Lancasters) pelo trono da Inglaterra que ocorreu durante o século XV. Esses conflitos ficaram conhecidos como Guerra das Rosas por causa dos símbolos de cada uma das famílias envolvidas: enquanto os York tinham uma rosa branca como símbolo de sua Casa, os Lancasters utilizavam uma rosa vermelha.

Já no título dos livros é possível perceber como o confronto influenciou a narrativa de Martin: assim como na Guerra das Rosas, o título A Canção de Gelo & Fogo deixa claro que se trata de uma narrativa de contrastes, uma dualidade que sempre irá existir até que alguém possa uni-las — assim como aconteceu no conflito inglês, que só chegou ao fim quando alguém conseguiu unir ambas as Casas por casamento, colocando membros de ambas no poder e finalizando de uma vez o confronto. Também é fácil entender a inspiração para o nome das duas casas com maior histórico de conflitos em Westeros, já que os Lannisters possuem um nome bem parecido com o dos Lancasters, e os Starks um que foneticamente é bem parecido com os York.

Oficialmente, a Guerra das Rosas durou entre 1455 e 1485, mas as raízes remontam ao século anterior, com a morte do Rei Eduardo III em 1377. Quando um rei morre, o costume é que seu primogênito assuma o trono como o próximo soberano. Mas, no caso de Eduardo, seu primogênito, Eduardo IV, conhecido também como “O Príncipe Negro”, já havia morrido no ano anterior (1376). Foi esse o estopim para o início das brigas familiares: por uma manobra dos conselheiros do antigo rei, quem acabou assumindo o trono foi Ricardo II, o quinto na linha de sucessão e que, na época, tinha apenas dez anos de idade — deixando seus três irmãos mais velhos ainda vivos justificadamente sentindo que haviam sido enganados. A escolha foi feita pelo motivo de, por ser ainda uma criança, os antigos conselheiros sabiam que ele seria mais facilmente manipulado e, na prática, seriam eles quem governariam a Inglaterra.

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Retrato de Margarida de Anjou (à esquerda), que serviu de inspiração para a personagem Cersei Lannister (à direita)

 

Como era de se esperar, deixar os três irmãos mais velhos fora do trono causou uma rixa na família. Não apenas os irmãos de Ricardo II, mas também os filhos deles, se sentiam com mais direito ao trono do que o atual rei. Esse sentimento era mais forte entre duas linhagens da família: os Lancasters (descendentes diretos do terceiro filho do rei Eduardo III, e que deveria ter assumido o trono com a morte do pai caso a linha de sucessão fosse respeitada) e os Yorks (descendentes diretos do quarto filho do Rei Eduardo III).

Apesar dos clamores pelo trono, o Rei Ricardo II conseguiu se manter no poder por 22 anos, até que, em 1399, ele foi deposto pelo seu primo, Henrique IV, da Casa Lancaster. Henrique IV se manteve no poder até 1413, quando seu filho, Henrique V, assumiu o trono com após sua morte. A situação da família real se manteve estável até 1422, quando Henrique V foi inesperadamente morto em batalha e deixa como herdeiro apenas um filho, Henrique VI, que na época não tinha ainda nem um ano de vida. Por conta de já ter praticamente nascido com todas as responsabilidade de um soberano, Henrique VI se tornou uma pessoa sem opinião e que fazia basicamente tudo o que seus assessores pediam e, em 1445, ele foi convencido a se casar com Margarida de Anjou, filha do Rei Renato I de Nápoles.

Margarida é a primeira personagem a aparecer na Guerra das Rosas que serviu de influência para um das protagonistas de Game of Thrones. Assim como Cersei Lannister, Margarida de Anjou era primariamente conhecida por sua beleza, mas desde que chegou ao poder ela revelou uma ambição pelo trono que os conselheiros de Henrique VI não esperavam e em diversos momentos foi extremamente cruel e violenta para conseguir satisfazer seus desejos e alcançar seus objetivos — e mesmo que originalmente fosse uma estrangeira, essa ambição a tornou a chefe da Casa Lancaster durante todo o período da Guerra.

Além de sua ambição por poder e da disposição em fazer qualquer coisa para mantê-lo, há um outro traço que aproxima Margarida de Cersei: a desconfiança que ambas tinham do melhor amigo do rei. No caso de Henrique VI, o melhor amigo dele era o duque Ricardo de York, personagem histórico no qual Martin se inspirou para criar Ned Stark, pois Ricardo era um guerreiro honrado que valorizava a amizade com o rei e que faria de tudo para protegê-lo daqueles que queriam apenas manipulá-lo para lhe roubar o trono.

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Retrato de Eduardo de Westminster (à esquerda), que serviu de inspiração para o personagem Joffrey Baratheon (à direita)

 

Durante praticamente todo o reinado, York havia sido o melhor amigo do rei e um de seus generais mais leais, mas desde que Henrique VI se casou com Margarida, a nova rainha se esforçava para afastá-los. Durante esse período, a Inglaterra ainda lutava contra a França na Guerra dos Cem Anos (conflito entre os dois países que se iniciou em 1337 e que só chegaria ao fim em 1453), e Ricardo era um dos maiores críticos de se manter as hostilidades durante todo esse tempo.

Por causa dessas críticas e manipulado por Margarida, Henrique VI “baniu” o seu melhor amigo e leal conselheiro para a Irlanda. Durante o período que Ricardo ficou isolado do contato com o trono, a Inglaterra passou por um de seus piores momentos, acumulando derrotas militares contra a França e vendo seu povo sofrer de fome com os altos impostos cobrados pelo governo corrupto de Margarida. No meio de todo esse caos, Ricardo retornou para a capital junto com um exército, com o objetivo de prender o Duque de Somerset (um dos mais leais aliados da Rainha Margarida) e trazer de volta a prosperidade para o povo da Inglaterra. Ricardo escolheu esse momento pois a Guerra dos Cem Anos havia acabado com a vitória da França, e ele viu nisso a oportunidade perfeita de encontrar Margarida e seus assessores enfraquecidos com a perda da Guerra e fazer com que o Rei Henrique VI percebesse o que eles estavam fazendo com o país.

Infelizmente, a perda da Guerra e a chegada de seu melhor amigo com um enorme exército na cidade foi demais para o monarca, que sofreu um colapso nervoso e ficou praticamente em estado vegetativo durante quase dois anos. Neste período, Ricardo foi condecorado como Regente da Coroa (uma posição equivalente a ser Mão do Rei em Game of Thrones) e ajudou a tentar restabelecer a ordem no país no período. O problema é que quando o Rei Henrique VI se recuperou de seu colapso em 1455, a Rainha Margarida não apenas o convenceu a tirar Ricardo da regência, mas também a desfazer todas as mudanças que ele havia proposto para o país.

Ricardo então, mais uma vez, saiu da capital e voltou com um exército para tentar botar ordem em tudo. A manobra deu certo e Henrique VI não apenas devolveu a Ricardo o posto de regente, mas também garantiu a ele que seriam os descendentes dos York que estariam na sucessão direta pelo trono, passando-os à frente do próprio filho, Eduardo de Westminster, que havia nascido no mesmo ano em que Ricardo invadiu a cidade pela primeira vez. Eduardo teria sido a inspiração de Martin para a criação do príncipe Joffrey, já que além de ficar conhecido por sua crueldade, muitas pessoas disputavam o fato de Eduardo ser mesmo filho de Henrique VI, já que havia a alegação de que os problemas de saúde que o monarca apresentou durante toda a vida o teriam deixado impotente.

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Retrato de Ricardo de York (à esquerda), que serviu de inspiração para o personagem Ned Stark (à direita)

 

Claro, a decisão de passar o trono para os York não agradou nem um pouco Margarida, e esse foi o início oficial da Guerra das Rosas. A Rainha começa a formar um enorme exército entre os Lancasters e seus aliados para extinguir a Casa dos York e acabar de uma vez com qualquer ameaça ao trono que pertencia à sua família. Em 1459, o Regente Ricardo é declarado como traidor pelo Parlamento Inglês (que havia sido manipulado por Margarida) e, em 1460, é executado por traição, tendo sua cabeça decepada e colocada em um espeto nos portões da cidade como aviso a seus aliados — um fim igual ao que teve Ned Stark no último episódio da primeira temporada de Game of Thrones.

Um ano depois, na Batalha de Towton, Eduardo de York, o quarto filho de Ricardo, consegue uma vitória que praticamente aniquila com todo o exército dos Lancasters. Com essa derrota, Margarida e seu filho Eduardo fogem para a França, Henrique VI é condenado à Prisão na Torre de Londres e o general dos York é coroado, tornando-se o Rei Eduardo IV.

Eduardo IV é uma figura que serviu de inspiração para Martin na criação do personagem Robb Stark. Ainda que na série Robb não tenha se tornado rei de Westeros, ele foi coroado como Rei do Norte e responsável pelas táticas que levaram a derrotas vergonhosas para o exército Lannister na segunda temporada da série e que minaram muito a força da família. Mas, assim como Robb Stark, o coração de Eduardo IV foi a sua ruína: ele recua da promessa que havia feito de se casar com uma das filhas da Casa Warwick — nobres franceses cujos exércitos foram responsáveis pelas vitórias dos York em batalha — e, em segredo, se casa com uma viúva dos Woodville — uma casa inglesa de menor prestígio. O movimento de Eduardo foi o mesmo de Robb Stark ao quebrar o acordo de se casar com uma das filhas de Lorde Frey para se casar secretamente com alguém sem importância política e, ainda que na vida real o efeito não tenha sido tão dramático quanto em um Casamento Vermelho, o fim foi basicamente o mesmo: os Warwicks se aliaram aos Lancasters e, em 1469, Eduardo IV foi derrotado e deposto do trono da Inglaterra.

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Retrato de Eduardo IV (à esquerda), que serviu de inspiração para a criação de Robb Stark (à direita)

 

Mas, como os Lancasters não conseguiram matar o grande general, a vitória deles é efêmera e, em 1471, Eduardo IV retorna ao país com um novo exército e retoma o trono, matando o Lorde de Warwick, o príncipe Eduardo de Westminster, o antigo Rei Henrique VI (que havia sido restituído ao trono após a queda de Eduardo IV) e encarcerando a antiga Rainha Margarida de Anjou, garantindo que todas as forças opositoras ao seu reinado ficassem sem poder para combatê-lo.

A estratégia deu certo e Eduardo IV reinou sem muitos problemas até o momento de sua morte, em 1483. Neste momento, a Coroa passaria então para seu filho, Eduardo V, mas como na época ele tinha apenas 12 anos de idade, o Parlamento da Inglaterra instaurou o irmão mais velho do rei recém-falecido, Ricardo III de York, como regente interino até que o príncipe tivesse idade para assumir o trono.

O problema é que Ricardo não queria estar no poder com o cargo de “interino” em frente a seu nome e declarou abertamente que tinha a intenção de se tornar rei do país. Como motivo para isso, Ricardo usou o casamento secreto de Eduardo IV com a condessa de Woodville alegando que, como não foi um casamento celebrado de maneira oficial com a presença da família e dos nobres do reino, ele nunca aconteceu de verdade, o que fazia de Eduardo V um bastardo e, portanto, não deveria herdar a Coroa. Essa alegação é a mesma feita por Stannis quando da morte do Rei Robert Baratheon na primeira temporada da série: Stannis afirma que ele deveria se tornar o novo Rei de Westeros porque Joffrey não era o filho legítimo de Robert, mas fruto de um amor incestuoso entre os gêmeos Lannister Cersei e Jaime e que por isso, para que a linha sucessória fosse seguida corretamente, o Baratheon mais velho (ou seja, Stannis) que deveria assumir o lugar de Robert como o novo Rei.

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Retrato de Ricardo III (à esquerda), que serviu de inspiração para a criação de Stannis Baratheon (à direita)

 

Ricardo consegue convencer o Parlamento de que está correto, e tanto Eduardo V quanto seu irmão, Ricardo de Shrewsbury, são declarados como ilegítimos e presos na Torre de Londres, onde ficarão até suas mortes. Eduardo e Ricardo não eram os únicos filhos do antigo rei com a condessa de Woodville (no total, eles tiveram dez filhos), mas eram os únicos do sexo masculino que ainda estavam vivos, ou seja, na visão de Ricardo eram os únicos que poderiam trazer-lhe qualquer problema quanto a sucessão do trono. Assim, em 1483, o Rei Ricardo III é coroado, o que causa uma nova revolta na facção dos Lancaster, que vêem essa briga interna da família York como a oportunidade de se lançarem novamente como pretendentes ao trono. Mas ele não teria um reino muito longo, pois do outro lado do Canal da Mancha a pessoa que colocaria um fim à Guerra das Rosas preparava seus exércitos.

Na França, Henrique Tudor se preparava para colocar de uma vez um fim na briga de três décadas entre os Lancasters e os York. Henrique era um descendente direto do primeiro Lancaster, e havia sido criado como exilado na França após a derrota de seu pai durante as primeiras rebeliões que levaram à Guerra das Rosas. Com o apoio não apenas dos Lancasters do continente, mas também de facções dos York que não apoiaram o golpe que colocou Ricardo III no trono, Henrique Tudor chegou ao país com uma enorme armada e um contingente de homens que rapidamente derrotou as forças de Ricardo III. Então em 1485, Henrique Tudor é coroado como o novo Rei da Inglaterra e, para acabar com o conflito de décadas entre as famílias, se casa com Elizabeth de York, uma das filhas do Rei Eduardo IV. Isso faz com que ambas as casas de Lancaster e York tenham um representante no trono, colocando um fim na Guerra das Rosas.

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Retrato de Henrique Tudor (à esquerda) que serviu de inspiração para a criação de Daenerys Targaryen (à direita)

 

A figura de Henrique foi a principal influência para a criação de Daenerys Targaryen por Martin. Ainda que Henrique não tenha tido a ajuda de dragões para conquistar o reino, os paralelos entre ambos os personagens são gritantes: ambos são descendentes diretos de um antigo monarca (Henrique do primeiro Lancaster, Daenerys de Aegon Targaryen, o último rei Targaryen e que foi deposto pela rebelião liderada por Robert Baratheon) e, assim, possuem uma reivindicação natural ao trono pelas linhas sucessórias. Ambos foram exilados de seus países ainda quando bebês e criados em segredo em uma região estrangeira (Henrique na França, Daenerys no continente de Essos). Outro paralelo claro são as similaridades entre essas regiões: Westeros e Essos são separados por um leito de água conhecido como Mar Estreito, enquanto França e Inglaterra são separadas pelo Canal da Mancha — um leito de água que, em inglês, é conhecido também como “narrow sea”, cuja tradução para o português é literalmente “mar estreito”.

Assim como Henrique para a Inglaterra, Daenerys também surgiu como uma “terceira opção” para o Trono de Ferro e conseguiu aliados não apenas entre as Casas que já se opunham àqueles que estavam no poder (no caso de Henrique, a casa dos Lancasters; de Daenerys, os Starks e todos seus aliados do Norte), mas também de aliados do próprio Rei que se opunham ao regime dele (no caso de Henrique, facções dos York; de Daenerys, podemos citar os Cavaleiros do Vale da Casa Arryn, os Greyjoys lideradas por Yara e os exércitos de Dorne, que historicamente eram aliados da Coroa mas se voltaram contra os Lannisters após a morte do príncipe Oberyn Martell). A própria ideia desse governante que surge “do nada” para por fim há uma guerra de três décadas também é aproveitada por Martin na criação da figura de Daenerys e pode ser compreendida no desejo dela de “quebrar a roda” — ou seja, de não ser apenas mais uma governante que irá sentar no trono e se preocupar com complôs e intrigas políticas para não perder a posição, mas alguém que irá alterar todo o sistema para algo mais justo e que garantiria a prosperidade de seus cidadãos.

Outras inspirações históricas

Claro, uma narrativa da complexidade de Game of Thrones não poderia ser inspirado em apenas um único evento ou figura histórica, e ainda que Martin já tenha confirmado que a Guerra das Rosas tenha sida uma de suas principais inspirações para o conflito entre as famílias de Westeros, sabemos que ela não foi a única. E outro momento histórico que inspirou o autor foi a Muralha de Adriano.

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Muralha de Adriano (à esquerda) foi a construção real que inspirou a criação da grande Muralha (à direita) que separa o Norte do resto do continente em Game of Thrones

 

Construída no século II, entre os anos de 122 D.C e 126 D.C., a Muralha foi uma construção ordenada pelo imperador Adriano, que governou o Império Romano entre os anos de 117 D.C e 138 D.C., e que tinha como objetivo proteger o território britânico já conquistado pelos romanos das invasões dos “bárbaros” da parte mais ao norte do continente, na região onde hoje fica a Escócia. A muralha era uma enorme construção de pedra, madeira e turfa, com 4,5 metros de altura e 2,5 metros de largura, e que se estendia através de praticamente todo o território que hoje é o norte da Inglaterra, tendo cerca de 118 quilômetros de extensão. Uma estrada de um metro de comprimento percorria o topo de toda a muralha para facilitar o transporte de tropas e mantimentos, com torres de observação espaçadas ao longo de toda a extensão da construção. Em diversos pontos ao longo dela, também foram construídos quartéis que serviam como locais de repouso, treinamento e guarnição dos soldados designados para proteger o perímetro.

A construção romana é bem parecida com a Muralha de Game of Thrones. Além do objetivo ser o mesmo — proteger o reino de Westeros do povo “selvagem” que vive ao norte —, a própria estrutura é praticamente idêntica à construída pelos romanos, com uma enorme estrada por todo a sua extensão, torres de observação ao longo de toda a estrutura, e quartéis em diversos pontos para abrigar as tropas que a defendem — locais onde, em Game of Thrones, servem de base para a Patrulha da Noite.

Mas, mesmo estudando as histórias reais que inspiraram Martin, ainda é difícil dizer quem vai sentar no Trono de Ferro ao final da série. A lógica diz que deverá ser Daenerys, mas se tem algo que Game of Thrones sempre fez ao longo de suas oito temporadas é subverter as expectativas do público, então ainda não podemos cravar com certeza que é ela quem terminará como a governante de Westeros. Mas, se a Guerra das Rosas for levada como base pelo autor até o fim, os fãs da Mãe dos Dragões podem esperar que ela termine como a derradeira monarca de Westeros.

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Fonte: Canaltech


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