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Luas com oceano subterrâneo podem estar geologicamente “mortas”

Há um bom tempo cientistas vêm debatendo sobre qual a lua do Sistema Solar tem mais chances de abrigar algum tipo de vida microbiana em seus oceanos subterrâneos. Estamos falando principalmente de Encélado e Europa (luas de Saturno e Júpiter, respectivamente, que têm oceanos no estado líquido abaixo de suas crostas congeladas). Contudo, um novo estudo levanta dados sugerindo a hipótese de, com exceção de Encélado, essas luas na verdade estarem “mortas” por dentro não apenas geologicamente, como também biologicamente.

Missões como Galileo e Cassini, da NASA, nos deram evidências de que essas duas luas abrigam oceanos globais subterrâneos, aquecidos pela atração gravitacional dos planetas que orbitam. E, considerando o fato de que na Terra existem comunidades gigantescas de seres vivendo na escuridão e alta pressão do fundo do oceano, fica fácil entender de onde surgiu a suspeita de que Encélado e Europa possam abrigar micróbios alienígenas abaixo de suas superfícies.

Europa (à esquerda) e Encélado (à direita)

Aqui na Terra, esses micróbios que vivem no fundo do mar se alimentam de substâncias químicas produzidas onde a rocha quente e a água do oceano se misturam continuamente. E, se estruturas semelhantes são encontradas em mundos alienígenas em que há oceanos subterrâneos, a perspectiva de encontrar vida fora da Terra, ainda que microbiana, fica mais plausível. Só que o estudo que vem sendo conduzido por Paul Byrne, geólogo planetário da Universidade Estadual da Carolina do Norte, dá um balde de água fria nessa ideia.

Ele e sua equipe determinaram quanta força seria necessária para quebrar a rocha oceânica de duas maneiras conforme vemos aqui na Terra: falhas normais e falhas de impulso. E quanto mais força for necessária para quebrar a rocha, menos atividade geológica está acontecendo, o que significa menos interações entre a rocha “fresca” e a água do mar e, portanto, menor a possibilidade de ali haver algum tipo de vida.

Além de Encélado e Europa, Byrne e sua equipe também analisaram outras luas como Ganimedes (de Júpiter) e Titã (de Saturno), calculando a força das rochas de cada um desses mundos. Esses cálculos se baseiam na espessura da camada de rocha sólida e fria que repousa sobre uma camada morna e quente, que não é capaz de ser quebrada. Valores como a gravidade do corpo em uma profundidade definida e o peso da água e do gelo no topo da superfície da lua foram adicionados. E, de acordo com Byrne, os resultados iniciais sugerem que as rochas dessas luas são tão fortes que não há força conhecida grande o suficiente agindo por ali para quebrá-las regularmente.

Em cada uma das luas analisadas, a equipe fez os mesmos cálculos considerando diferentes valores para a força da rocha, com esses valores estando dentro do esperado para cada mundo. E os resultados não são promissores para a vida alienígena. “Para Europa, parece muito difícil fazer qualquer fratura nas rochas, e depois de olhar para Titã e Ganimedes, concluímos que nada está acontecendo por ali”, disse Byrne.

Já para Encélado os resultados não são tão sombrios, uma vez que a lua é muito menor do que as outras três, o que reduz o peso da água e do gelo acima da superfície rochosa e, além disso, seu núcleo é mais poroso. Graças aos dados coletados pela sonda Cassini, os cientistas têm evidências de que rocha e água ainda interagem em Encélado, o que justifica as plumas de água que são expelidas por meio de fraturas na crosta congelada deste satélite de Saturno. Nessas plumas, inclusive, foi identificada a existência de moléculas orgânicas complexas.

Arte mostra como são os gêiseres que expelem plumas de água em Encélado (Imagem: NASA)

Com tudo isso em mente, podemos concluir que Encélado é realmente a lua do Sistema Solar com as maiores chances de abrigar algum tipo de vida, ainda que microbiana e, quem sabe, este novo estudo não sirva para a NASA mudar seus planos, já que na mesa há um projeto chamado Europa Clipper com previsão de lançamento para 2022, justamente para buscar sinais de vida na lua joviana, enquanto Encélado ainda não tem nenhuma nova missão específica com este objetivo.

De qualquer maneira, Byrne enfatiza que os resultados iniciais de seu estudo ainda não são conclusivos, apenas fornecendo fortes evidências de que as luas estudadas, com exceção de Encélado, podem estar “mortas” por dentro. A equipe ainda está vendo como outros cientistas respondem aos mesmos cálculos, e a pesquisa final ainda será publicada — o que pode levar muitos anos, por sinal, já que é necessário coletar mais dados para obter um resultado realmente concreto, para que então sejam realizados testes que confirmem os estudos. “Se estivermos errados, tudo bem, é assim que a ciência funciona”, encerra Byrne.

Fonte: Canaltech


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