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Com aceleração, Google quer fortalecer mercado de jogos independentes

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Não basta apenas criar jogos de qualidade, é preciso gerar empresas fortes. Essa foi a grande mensagem passada pelo Google ao final do Indie Games Accelerator, um programa de fomento aos estúdios independentes de jogos que cujo encerramento da edição 2019 aconteceu nesta quinta-feira (12), em Singapura. Mais do que apenas bons títulos, a ideia é incentivar o mercado como um todo, bem como as comunidades locais dos participantes e o ecossistema do Android como um todo.

Em sua segunda edição, o programa abre suas portas para a América Latina e conta com nada menos do que quatro estúdios brasileiros entre os selecionados. Na mentoria, não apenas especialistas do próprio Google, mas também personalidades da indústria que selecionaram os 29 participantes entre mais de 1,7 mil inscrições e realizam mentoria em diferentes áreas de conhecimento que vão desde design e storytelling até monetização e gerenciamento de equipe.

“Estúdios fortes para produção de jogos geram um mercado poderoso”, explicou Vineet Tanwar, gerente de desenvolvimento de produtos do Google Play Apps. O objetivo do programa, do qual ele é um dos líderes principais, está no próprio título do seu cargo. A ideia é ajudar produtoras a encontrarem seu caminho, mas também fazer com que toda a indústria siga adiante.


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Vineet Tanwar é um dos nomes à frente dos esforços do Google para fomentar o desenvolvimento de jogos independentes e levar o mercado adiante (Foto: Felipe Demartini/Canaltech)

Uma prova disso é que, mesmo neste dia de festa, os participantes do Indie Games Accelerator também tinham muito trabalho a fazer. Em mais uma semana de trabalhos presenciais em Singapura, os estúdios se encontraram com investidores e publicadoras para estudar a viabilidade de suas obras, bem como tiveram mentorias finais em áreas estritamente de negócios, como liderança, financeiro e gerenciamento de equipe e recursos. A formatura, como o Google deixa claro, não é o final da jornada, mas sim o encerramento de uma etapa e o início de outra.

Outro ponto importante é estritamente técnico, com o Google querendo garantir que os games acelerados funcionem em uma grande quantidade de dispositivos com Android, mas principalmente, nos mais modernos. Não é a toa que, entre os prêmios dados pela empresa para os formandos está um smartphone Pixel 4, a ser usado nos testes dos aplicativos, um Nest Hub e US$ 200 mil em créditos na plataforma de cloud da Google para treinamento e suporte técnico. Um trampolim dos bons para o sucesso.

“Queremos formar estúdios que sejam líderes da indústria em alguns anos. Agora é a hora de garantir que eles sejam sustentáveis para chegarem lá”, explica Sami Kizilbash, diretor de relações com desenvolvedores do Google Play e outro dos líderes do IGA. Uma prova disso é Pandora Hunter, RPG da Tailândia cujo estúdio, a Extend Interactive, foi acelerado no ano passado e, em 2019, ganhou menção honrosa entre os melhores jogos disponíveis no marketplace de apps para o público asiático.

Abrindo os olhos

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Graduandos representam 39 estúdios indies da região Ásia-Pacífico e, pela primeira vez no Indie Games Accelerator, América Latina (Foto: Felipe Demartini/Canaltech)

“Nós temos um jogo melhor agora e, com isso, mais confiança para transmitir nossa ideia e conseguir investimento ou acordos de distribuição”, completou Camila Malaman, do estúdio brasileiro Webcore Games. A obra da produtora, Timo The Game, foi fruto de um edital da SP Cine que visava unir games desenvolvidos aqui e autores nacionais. O resultado foi um título que traz influências do nordeste do país, mas as transforma em um título lúdico e global, sobre um garoto que acaba preso em livros de fantasia e deve enfrentar inimigos e resolver puzzles para escapar.

Durante um painel com desenvolvedores antes da cerimônia de formatura do Indie Games Accelerator, ela falou um pouco sobre os desafios que envolvem o mercado nacional de jogos. Por mais que tenhamos centenas de produtoras por aqui e presença forte das principais marcas do setor, “não é fácil chegar lá”. Tanto que a Webcore trabalha da mesma maneira que tantas outras produtoras, criando jogos de serviço ou contratados por empresas que geram o financiamento para que as ideias autorais possam florescer.

Trabalhar com esse equilíbrio é uma das tarefas mais importantes do programa de fomento de jogos independentes do Google. “O currículo do Indie Games Accelerator teve de ser pensado de forma customizada não apenas para os territórios dos participantes, mas também para o setor em si. Produtoras não são uma startup tradicional, nem seus jogos, produtos tradicionais. É preciso pensar diferente”, explica Kizilbash.

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Estúdios independentes apresentaram seus jogos para líderes da indústria e foram instruídos por eles no caminho para o sucesso (Imagem: Divulgação/Google)

Divididos em grupos de acordo com as necessidades de cada um e também o gênero ou segmento em que se encaixam, os produtores tiveram contato com especialistas como Angelo Lobo, um dos designers responsáveis por Farmville, Fawzi Mesmar, diretor de Candy Crush Saga e outros sucessos da King, e Wan Hazmer Bin Wan Ab Halim, designer de áudio de Final Fantasy XV. Logo na primeira sessão de mentoria, que aconteceu entre o final de julho e o início de agosto, porém, a ideia do executivo se provou real, mas nem tanto.

Divididos em grupos de acordo com as necessidades de melhoria identificadas pelo Google e também o nicho e segmento em que cada produtora se encaixava, o que todos perceberam era que as dificuldades que possuíam eram comuns, mesmo em países tão distantes quanto Brasil e Vietnã. E, da mesma forma, todos estavam unidos e dispostos a encará-las por um amor em comum: pelos games e seu desenvolvimento.

Essa paixão também faz com que Kizilbash destaque um aspecto importante do processo do Indie Games Accelerator, que envolve não apenas aprender com o sucesso dos líderes do mercado, mas também com fracassos deles. “Logo de início, fizemos questão de entender as fraquezas e forças de cada um dos participantes, para que todos, inclusive nós mesmos, soubéssemos onde e como trabalhar”, completou.

Francisco Lara Sikorski, do estúdio mexicano 1 Simple Game, sentiu isso na pele durante o programa de aceleração, mas no sentido oposto. “Em nosso país, temos aprendido mais com os erros do que com os acertos. O programa nos ajudou a ter contato com histórias de sucesso e, principalmente, compreender o que estava faltando para que chegássemos lá”.

Para Malaman, uma das grandes lições do IGA, que ela deixa para outros estúdios independentes, é de que começar pequeno e de forma simples é uma ótima forma de aprender, empreender e, principalmente, entender o que cada estúdio é capaz de fazer. Experiências desse tipo podem servir para treinar ou melhorar habilidades, encontrar um nicho e entender as métricas. Tanto que, no caso de Timo The Game, a França se provou o maior mercado para o game brasileiro, algo que surpreendeu a todos os envolvidos.

A ideia de que a visão de negócio foi o maior aprendizado é compartilhada por todos. Juan de Urraza, da Possibilitan Tech, teve de se livrar de velhos orgulhos para ver sua ideia funcionando. O estúdio paraguaio desenvolveu Fhacktions, um jogo criado com a alma do país para representar o mercado internacionalmente. A falta de mão de obra local especializada em elementos como UX e monetização fez com que ele buscasse contratações internacionais e equipes diversificadas. “Crescer acaba sendo o mais importante e é justamente por isso que amamos tanto o que fazemos”, contou.

Mantendo contato

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Contato entre desenvolvedores de diferentes países fez com que os participantes do IGA percebessem desafios e ambições semelhantes, mesmo vivendo em cantos opostos do mundo (Foto: Felipe Demartini/Canaltech)

A experiência de falar com designers de todo o mundo, bem como líderes com vivências bem diferentes, foi um desafio por si só. De um lado, como ressalta Kizilbash, a ideia é dar confiança aos desenvolvedores mostrando que gente renomada da indústria está de olho e, acima de tudo, apreciou o trabalho deles. Por outro, os feedbacks de diferentes experiências podem tornar as coisas um pouco confusas, algo em que o Google também pensou.

“O retorno de especialistas é diferente dos testes com usuários, que consideramos apenas como reclamações”, explica Saranpat Sereewiwattana, da produtora tailandesa 1Moby. Segundo ele, o feedback dos responsáveis sempre vem acompanhado de formas de resolver os problemas, o que auxilia no processo de tomada de decisão. Por outro lado, como ressaltou Malaman, um mentor pode elogiar uma coisa que acaba sendo bastante criticada por outro. Encontrar o balanço é difícil, mas possível.

O caminho para isso, segundo o diretor de relações com desenvolvedores, é trabalhar com um sistema de objetivos e resultados. Trocando em miúdos, o processo envolve basicamente que os produtores saibam onde querem chegar e de que forma farão isso, cumprindo também “lições de casa” que são dadas pelos líderes em diferentes etapas da mentoria. “Muitos estúdios acabam usando esse método mesmo após o fim do programa, o que consideramos como uma prova do sucesso dele”, finaliza.

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Para Sami Kizilbash, diretor de relações com desenvolvedores do Google, o contato direto entre mentores e selecionados reduziu barreiras e mostrou motivações em comum (Foto: Felipe Demartini/Canaltech)

Tanto que, no palco da cerimônia de formatura do Indie Games Accelerator, o executivo faz um pedido a todos os participantes: mantenham contato. Ele espera ver os graduados não apenas levando o feedback e aprendizado recebido para suas próprias equipes e futuros projetos, mas que também auxiliem comunidades locais de criação de jogos com os mesmos ensinamentos, ampliando ainda mais o ecossistema.

O Google também continua acompanhando o sucesso de seus antigos alunos e permanece acessível para dicas e novas iniciativas envolvendo, por exemplo, o programa de assinaturas Google Play Pass. O serviço, em si, não foi um assunto muito comentado no evento por ainda estar em fase restrita de disponibilidade, mas já está no radar dos desenvolvedores formados nesta semana, principalmente como uma forma de monetização adicional.

É um final de jornada, por assim dizer, que nos leva novamente ao início de tudo e à gênese do próprio programa de aceleração. “As experiências do passado continuam a potencializar os programas de hoje, e o agora, com certeza, vai nos ajudar a encontrar um caminho ainda melhor para a classe de 2020”, completou Kizilbash, do palco, antes de começar a entregar os troféus para os graduandos.

Quem estiver interessado já pode começar a pensar no assunto. As inscrições para o Indie Games Accelerator deve começar em abril do ano que vem, mas desde já, o Google tem um cadastro disponível para que os estúdios possam demonstrar sua intenção de participarem do programa e serem notificados quando a etapa inicial estiver disponível.

O jornalista viajou para Singapura a convite do Google.

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Fonte: Canaltech