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Conversamos com o homem que salvaria a Apollo 11 em caso de falha na comunicação

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Sabemos que o sucesso da missão Apollo 11 estampou alguns nomes na história da exploração espacial, como os dos astronautas Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin. Mais recentemente, também ouvimos mais sobre a história de mulheres como Margaret Hamilton, criadora do programa de voo que levaria o Homem à Lua. Mas havia também outras figuras de grande importância nos bastidores, como Steve Anderson.

Anderson comemorou seu 50º aniversário como associado da Unisys, a fabricante do UNIVAC, um computador fundamental para a NASA na década de 1960. Ele trabalhou na Apollo 11, morou no Brasil – onde a empresa também atua – e se aposentou recentemente como um personagem histórico para a Unisys. E o Canaltech teve a oportunidade de fazer algumas perguntas ao engenheiro, que as respondeu durante evento fechado no qual ele se despediu da empresa.

Garantindo a comunicação com a Apollo 11

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Steve Anderson era operador do UNIVAC, o primeiro computador comercial fabricado e comercializado nos Estados Unidos, e peça fundamental para as primeiras missões lunares da NASA. Durante a Apollo 11, Anderson exerceu a modesta função de salvar a vida dos astronautas caso algo desse errado na comunicação entre a nave espacial e a sala de controle em Houston.


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Apenas astronautas designados no Centro de Controle da Missão – os chamados CAPCOM – tinham autorização para se comunicar diretamente com a tripulação da nave espacial. No caso das missões Apollo, era necessária uma forma de comunicação diferente do método usado pela missão Mercury (que levou o primeiro astronauta norte-americano à órbita terrestre em 1962). Para o contato com uma nave na Lua, era preciso uma rede de comunicação interplanetária – a Deep Space Network (DSTN).

Foi aí que o UNIVAC provou ser fundamental para as missões Apollo, pois o sistema era capaz de processar os dados da DSTN, permitindo comunicação em tempo real em um fluxo contínuo de 48kbps – o que era incrível para a época.

Anderson era um jovem engenheiro de apenas 20 anos e operava um UNIVAC 494, em Minnesota, que servia de backup nessa rede de comunicações. Seu papel, na verdade, era recuperar a comunicação entre a nave e o comando caso ela fosse interrompida por alguma falha técnica. Se alguma coisa desse errado e ele não estivesse ali para resolver o problema, os astronautas da Apollo 11 provavelmente errariam as coordenadas de voo e não conseguiriam entrar na órbita da Lua. A nave vagaria pelo espaço, perdida para sempre.

Felizmente, não houve falhas na comunicação e Anderson não precisou apertar um botão sequer. Mas isso não diminui sua importância – e o nervosismo de ficar na expectativa de que, talvez, a vida de três astronautas estivesse, literalmente, em suas mãos.

Confira abaixo alguns trechos da conversa entre Steve Anderson e o pessoal da Unisys, na qual o engenheiro respondeu algumas de nossas perguntas.

Pode nos contar como foi para você o dia do lançamento da Apollo 11?

SA: Foi um dia corrido de preparações, e os computadores precisavam ser preparados. Tudo estava conectado, estava tudo preparado. Era uma coisa bem complexa. As pessoas estavam muito preocupadas, porque os computadores de transmissão da época não tinham um alcance tão grande quanto o que precisávamos, era uma coisa nova. Tinham computadores UNIVAC no sistema de intercomunicação. Os computadores UNIVAC utilizados eram os da 2ª geração. A comunicação ia passar pelo sistema de dois satélites, um a leste e outro a oeste dos EUA. As informações que enviaríamos para estes satélites deveriam ser precisas e sincronizadas, pois qualquer erro poderia resultar em uma possível perda de rota dos astronautas, e eles poderiam ficar para sempre perdidos no espaço. No fim, tudo deu certo!

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O que você aprendeu na época, que você considera importante para a continuidade do seu trabalho?

SA: Quando eu comecei a trabalhar lá, eu estava bem animado. Minha carreira toda na Unisys foi envolta em tecnologia, todo ano era uma coisa mais rápida, com melhor processamento, mais memória, em um objeto cada vez menor. Foi divertido estar tanto tempo envolvido com tudo isto, com tantas coisas importantes que impactam a vida de pessoas mundialmente.

Sabemos que houve um pouco de pressão por conta da Guerra Fria com a URSS na época. Sua equipe também sentiu essa pressão devido ao contexto político?

SA: Na época, as pessoas tinham a impressão de que um avanço do outro país poderia ser o que nos esmagaria literalmente, então as pessoas levavam muito a sério o que estava acontecendo, com uma guerra nuclear iminente e tudo mais. Nós tínhamos muitos problemas, tivemos muitos fracassos antes de termos sucessos nos programas espaciais. Estávamos com medo de que algo fosse acontecer, mas acho que houve uma sensação de união quando Kennedy disse que iríamos à Lua, isso ficou na cabeça de todo mundo, era algo muito futurista. Isso envolveu todo mundo, e todo mundo trabalhou muito. Houve muitos fracassos, mas muitas vitórias, e quando tudo deu certo todos ficaram extremamente felizes. Foi com certeza uma conquista para o mundo todo, e não só para um país.

Somos mais familiarizados hoje com a interface do Windows e de aparelhos móveis. Como era o processo para operar o UNIVAC?

SA: Na época, aqueles computadores de segunda geração eram bem estáveis e com comunicação em tempo real. Algumas versões foram surgindo a partir daquele tempo. O sistema operacional usado em 1994 foi o primeiro sistema multiprocessador do qual eu tenho notícia. Mas aqueles programas ainda podem ser operados mesmo depois de mais de 50 anos, o que é incrível!

Você diria alguma coisa para as pessoas que acabaram de começar a carreira no meio tecnológico?

SA: Eu diria que que é necessário prestar atenção aos detalhes, é um trabalho que exige muito do cérebro. Observar todo o contexto e tentar compreendê-lo ao máximo, e prestar atenção a tantas coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo.

Sobre a Unisys

A Unisys foi fundada em 1910, e na época se chamava Sperry Corporation. Fabricava equipamentos de navegação e tinha suas próprias invenções, como o girostabilizador marítimo e o girocompasso, ambos baseados no giroscópio. Durante a Primeira Guerra Mundial, a empresa se diversificou em componentes de aeronaves. Após uma série de fusões, essa empresa existe como parte da Unisys, enquanto outras divisões se tornaram parte da Honeywell, Lockheed Martin, United Technologies e Northrop Grumman.

Uma dessas fusões aconteceu em 1955, quando a Sperry adquiriu a Remington Rand, entre outras empresas de tecnologia e engenharia, e se tornou a Sperry Rand. Assim, desenvolveu a série de computadores UNIVAC, um salto da computação nos EUA.

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Fonte: Canaltech