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Tecnologia: uma aliada inesperada para pessoas com TDAH

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O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é o mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para serviços especializados e ocorre em 3 a 5% das crianças nas várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). A organização aponta ainda que já existem inúmeros estudos em todo o mundo – inclusive no Brasil – demonstrando que a prevalência do TDAH é semelhante em diferentes regiões, o que indica que o transtorno não é secundário a fatores culturais, como o modo como os pais educam os filhos, ou resultado de conflitos psicológicos.

“TDAH é um transtorno neurobiológico de causas em grande parte genéticas e que se caracteriza pela presença de impulsividade, hiperatividade e desatenção. Seu diagnóstico pode ser feito a partir de 6 anos e transcorre para a vida toda”, explica a dra. Katia Vega, psicóloga da Televita, plataforma de consultas online que conecta profissionais de psicologia a pacientes de todo o mundo. Katia acrescenta que, na infância, é mais comum identificar na idade escolar os comportamentos hiperativos e impulsivos porque são crianças que demonstram muita energia, inquietação, impaciência, interrompendo conversas ou derrubando objetos e com pouca capacidade de avaliar consequências. “Já as crianças com presença maior da desatenção muitas vezes passam despercebidas, justamente porque não incomodam. Mas se designam das conversas ou ambiente facilmente”, aponta.

A psicóloga da Televita afirma que, na fase adulta, a hiperatividade que antes era mais visível por conta da agitação corporal, segue seu curso em um nível mental, fazendo com que tenham dificuldade para dormir ou acordar, pouco planejamento, muitos esquecimentos e desorganização. “Adultos com TDAH tendem a mudar demasiadamente de emprego e de projetos, deixando-os incompletos, trazendo ainda uma tendência a maior número de divórcios, problemas com a justiça, multas de trânsito,  envolvimento em acidentes e eventualmente abuso de drogas e álcool”, reitera.


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A dra. também explica que os tratamentos tradicionais, que possuem estudos comprovados de sua eficácia, passam pelo uso de medicação e terapia cognitivo-comportamental. Um ajudará no ajuste da instabilidade de atenção e controle dos sintomas, e o outro ajudará no treinamento de habilidades, muitas vezes pouco desenvolvidas, auxiliando na mudança do comportamento. Ainda existe o tratamento com neurofeedback para os que não têm recomendação médica. Tendo isso em mente, será que a tecnologia, que vem se concentrando tanto na saúde mental dos usuários, com artifícios capazes de ajudar quem tem depressão, por exemplo, também coloca o TDAH em sua mira? Nesta matéria, trazemos alguns exemplos de como a tecnologia pode ser uma improvável aliada desses pacientes.

Realidade Virtual

Ao perceber que sua filha de sete anos tinha TDAH, e tinha mais concentração para estudar com o auxílio da realidade virtual, o administrador Wanderson Leite fundou a empresa ASAS VR, que leva a realidade virtual para a educação e outros mercados. Basicamente, a companhia cria experiências sensoriais e realistas, com ambientes virtuais ou reais. Wanderson conta que já conseguiu “dar asas” a quem precisa, uma vez que a empresa já atendeu pessoas em situações difíceis, em hospitais, com limitações físicas ou que por algum motivo não teriam a oportunidade de conhecer alguns lugares pessoalmente.

Mas qual é a relação entre a realidade virtual e a TDAH, necessariamente? De acordo com Wanderson, por ser um ambiente imersivo, todo foco está voltado para a experiência. “Com a realidade virtual, temos controle deste ambiente seguro. No momento em que o usuário coloca os óculos de realidade virtual, ele é transportado para essa experiência e estimulado a se concentrar no que está a sua frente, sem distrações”, afirma.

Ele conta que sua filha sempre teve muita dificuldade na escola, pois não acompanhava o ritmo dos demais alunos. Estava sempre um passo atrás, e tarefas simples — como aprender o alfabeto — acabavam se mostrando como algo extremamente complicado. “Depois que usamos a realidade virtual para criar um ambiente onde ela pudesse ter seu foco todo voltado para o que estava acontecendo dentro dessa imersão, ela conseguia assimilar melhor e armazenar as informações de uma forma muito mais rápida. Começamos a estimular a concentração, e isso teve resultados incríveis na sala de aula, no dia a dia e na vida dela como um todo”, conta. O administrador enfatiza que o TDAH geralmente é encarado como falta de interesse, então os sintomas não são acompanhados da forma que deveriam. Até mesmo na escola, os profissionais muitas vezes têm dificuldade em analisar essa condição, segundo o rapaz. Normalmente não é dada a devida atenção que a criança merece, ou pior, são forçadas situações em que se briga com a criança para prestar mais atenção. Esse tipo de situação só piora as condições da criança.

A partir de sua vivência como pai, Wanderson também diz que o verdadeiro problema é a falta de informação, mas que a tecnologia ajudou a tornar tudo mais acessível. “Com as redes sociais, pais de crianças com TDAH começaram a compartilhar suas experiências, o que fez com que muitas pessoas prestassem um pouco mais de atenção nos seus filhos, procurando ajuda de profissionais”, disserta.

Outra ferramenta que utiliza a Realidade Virtual para possibilitar uma ampla imersão a pacientes que sofrem deste transtorno é a TFMind, que também disponibiliza ao psicólogo, por meio de sua interface web, acompanhamento, monitoramento e controle em tempo real da experiência do paciente no equipamento de Realidade Virtual, além de gerar relatórios da terapia utilizada e dos resultados obtidos. Novas terapias já estão em desenvolvimento para o início de 2020.

Jogo ajuda na alfabetização de crianças com TDAH

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Buscando estimular o desenvolvimento e autonomia da criança e criar oportunidades de desenvolver suas habilidades cognitivas, a brasileira Ana Paula Sarrizo  investiu na criação do jogo Brainy Mouse, focado na alfabetização de crianças com TDAH ou autismo. O game pode ser utilizado em qualquer celular Android ou iOS — em inglês, português, e, em breve em espanhol — e também se propõe a auxiliar pais, responsáveis, professores e profissionais que convivem com essas crianças. O usuário pode configurar o jogo, mudando as cores do layout, escolhendo a música que vai tocar, a velocidade do ratinho, a voz da locução, além da fonte. “Pensamos nisso porque entendemos que nenhuma criança autista é igual a outra. Cada uma tem sua personalidade, sua identidade própria e seus desafios. Algumas não se sentem confortáveis com as mesmas rotinas, já para outras isto é fundamental”, afirma Ana. O jogo conta com apoio do Dr. Augusto Cury, doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra.

Brainy Mouse foi fundado por meio da Brainy Mouse Foundation, que é uma organização sem fins lucrativos, que tem como objetivo desenvolver aplicativos digitais que promovam a inclusão de crianças e adolescentes. O jogo é ambientado em restaurantes representados por países. Cada restaurante é detalhadamente decorado com os utensílios, cores e layout customizados conforme a cultura e referências do país. A criança precisa coletar as sílabas espalhadas no restaurante sempre da esquerda para direita, formando as palavras indicadas no menu de tarefa do prato determinado.

“Ferramentas que estimulam as habilidades cognitivas das crianças acrescentam muito no tratamento traçado pelos profissionais que assistem as crianças. O jogo Brainy Mouse motiva a criança a socializar através do Rato amigo, encontrado como ajuda dentro do jogo. Toda hora a criança está sendo desafiada a manter sua autoestima e felicidade em alta. Muitos relatos de profissionais usando o jogo com crianças com TDAH têm chegado para nossa equipe”, conta a fundadora.

Ginástica cerebral

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O Supera é um aplicativo que traz cursos e exercícios para desenvolver a memória, a concentração, o raciocínio e a criatividade. Silvana, mãe de Lorenzo Tremarin, aluno de 13 anos do Supera e portador de TDAH, conta que o aplicativo faz com que ele consiga se manter centrado por um tempo maior. “Ele é excessivamente ativo, não consegue ficar parado, logo enjoa da atividade que está fazendo e precisa partir para outra. É necessário ter muita paciência e dialogar bastante”. A mãe de Lorenzo conta que ainda há um certo preconceito com quem tem o déficit de atenção: “As pessoas olham para a criança muito agitada e julgam logo os pais pelo comportamento”.

Valeria Polo Vidal Sampaio, mãe do aluno Davi Polo, também percebe que essas crianças sofrem preconceito: “O preconceito é muito grande principalmente pelas próprias crianças que tiram sarro, dão apelidos. Se a escola não se preocupa com o desenvolvimento do aluno, pode deixar marcas terríveis em sua vida. A tecnologia e as redes sociais ajudam a termos mais contato com estes tipos de déficits e acesso a experiências que são expostas”. Ela conta que o TDAH prejudica o aluno, mas que a ginástica cerebral o ajudou a focar e ter mais atenção nas atividades.

Patrícia Prata, diretora pedagógica nacional do Supera, explica que o app trabalha com habilidades cognitivas, e que os jogos têm como objetivo ampliar o período atencional do aluno com atividades específicas. “Quanto mais o aluno exercitar essas atividades de atenção, mais o desempenho dele é impactado”, afirma. A diretora ainda acrescenta: “No curso de ginástica para o cérebro, a gente treina a atenção. Junto a esse treinamento, nós mostramos comportamentos que podem ensinar o aluno a ter sucesso por meio de mediação em sala de aula, que é o necessário para auxiliar no TDAH. Por exemplo: antes de iniciar uma determinada realidade, o aluno deve limpar sua mesa, sentar em uma postura confortável. A partir do treino, essa disciplina nas ações é levada para outros contextos, além da ampliação do período atencional”.

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Fonte: Canaltech


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