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Você encararia? Testes identificam se você tem predisposição para o Alzheimer

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Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), à medida em que a população mundial está envelhecendo, é esperado de que o número de pessoas que vivem com demência triplique até 2050, passando de 50 milhões para 152 milhões. Dentro desses números, a doença de Alzheimer é o tipo mais comum de demência, ou seja, a busca por novos tratamentos deve atrair cada vez mais pesquisadores e investimentos.

Durante muitos anos, o Alzheimer sempre foi uma doença envolta de mistérios, porque os médicos só eram capazes de fechar um diagnóstico depois que a pessoa já estava em estágios avançados da demência ou quando realizavam uma autópsia, isto é, após a morte.

Nesse sentido, novas tecnologias têm acelerado cada vez mais o diagnóstico do Alzheimer, como os testes cerebrais e as extrações de amostras de medula, que podem detectar a proteína beta amiloide — uma indicadora da doença. Além disso, há um exame de sangue, ainda em desenvolvimento, que será capaz de detectar a proteína.


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Outras vertentes de exames utilizam inteligência artificial (IA) para diagnósticos mais precisos. Enquanto isso, pesquisadores fazem experimentos também com exames que buscam outra proteína, chamada tau, característica dos casos de Alzheimer.

À medida que esses testes para diagnósticos cada vez mais precoces para o Alzheimer se generalizam, um maior número de pessoas, principalmente aquelas que têm histórico familiar, enfrentarão uma pergunta complexa: eu gostaria de saber se terei a doença de Alzheimer?

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Cada vez mais pessoas irão se deparar com a seguinte dúvida: descobrir ou não se terão predisposição para o Alzheimer (Imagem: Orla / Shutterstock)

Caso clínico

O Dr. Daniel Gibbs, neurologista de Portland, nos Estados Unidos, já se viu diante dessa pergunta, quando percebeu os primeiros sinais de que sua memória estava falhando. Em busca de respostas, Gibbs realizou uma série de exames cerebrais que procuravam a proteína beta amiloide. Em paralelo, faz também testes cognitivos para um diagnóstico completo.

Resultado? O neurologista já estava vivendo os estágios iniciais da doença de Alzheimer e, agora, se ocupa de como melhorar seu futuro. Por enquanto, o tipo de teste a que ele se submeteu ainda é caro e as varreduras cerebrais para o diagnóstico, via de regra, não são cobertas pelo planos de saúde mais comuns, nem nos EUA. Assim, ainda são para poucos, embora essa realidade caminhe para uma grande mudança.

Pelas últimas análises, mesmo os pacientes sem problemas de memória que apresentarem proteínas amilóides no cérebro têm uma maior probabilidade de progredir com a doença de Alzheimer, segundo o Dr. Ronald Petersen, neurologista da Clínica Mayo, em Rochester, nos Estados Unidos.

Diagnóstico incompleto

Mas a doença não evolui em todo mundo cujas proteínas estejam reativas, e esse é o grande problema dos resultados. Mesmo quando as suspeitas são confirmadas, até a doença se manifestar já se passaram alguns anos. Fora dos estudos, Petersen explica que “não fazemos exames amiloides em pessoas clinicamente normais, porque não sabemos o que lhes dizer.”

Para o Dr. Gil Rabinovici, professor da Universidade da Califórnia, com esses resultados, alguns pacientes ficam angustiados com seus (possíveis) problemas de memória, sabendo que algo está errado e são incapazes de obterem uma resposta satisfatória de seus médicos. “Muitas vezes, os médicos não conseguem dizer se a perda de memória está relacionada ao envelhecimento”, comenta Rabinoci, citando um exemplo.

Em outros casos, como explica o professor, “os médicos descartam [o diagnóstico] e dizem aos pacientes: ‘Você está bem, é normal. Você tem 75 ou 89 anos e está deprimido. Por que não experimentar um antidepressivo?’”.

Por isso, antes de oferecer testes e a possibilidade de um diagnóstico, Rabinovici busca dialogar com o paciente e seus familiares. Nesse momento, pergunta como se sentirão, caso o teste dê positivo. O consenso é que a maioria das pessoas que recebem esses diagnósticos positivos, depois do choque inicial, não se arrependem do fato de terem testado.

Contribuindo com essa linha de pensamento, o Dr. Jason Karlawish, que investiga o Alzheimer na Universidade da Pensilvânia, desenvolveu um estudo para avaliar as respostas dos pacientes ao aprendizado de que eles tinham níveis elevados de amilóide no cérebro, ou seja, que, muito provavelmente, teriam Alzheimer. Nos casos analisados, Karlawish não se deparou com atitudes extremas.

Do contrário, muitos pacientes alegaram que estavam tomando medidas, consideradas até o momento corretas, para retardar a doença de Alzheimer. Dessa maneira, investiam em dietas e exercícios saudáveis, mesmo que nenhuma medida de estilo de vida tenha demonstrado efeito de fato.

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Comparação entre o cérebro paciente diagnosticado com doença de Alzheimer (esquerda) comparado a um não (direita) (Foto: Divulgação/ Science Photo Library)

Mais perguntas

Além de lidar com o próprio diagnóstico, uma série de perguntas se levantam para os pacientes com predisposição para a doença. Seus amigos irão ficar com você? Como seria a vida quando não se é mais capaz de reconhecer sua família ou até mesmo falar? Sem respostas concretas para essas questões que aparecem, o saber é sempre mais difícil.

A boa notícia é que há uma série de investimentos em pesquisa para além do diagnóstico. Isso significa que médicos e cientistas têm se juntado para melhorar a vida dos pacientes já diagnosticados com Alzheimer. A Biogen, que é uma empresa farmacêutica, afirma ter encontrado o primeiro tratamento que pode retardar o curso da doença, caso seja iniciado cedo o suficiente. Clínicas de saúde no Brasil têm trabalhado a relação de pacientes com demência e pets robôs para aliviar, por exemplo, a solidão.

Um grupo de cientistas das universidade de Bath, Bristol, Zurique e Auckland estão no caminho de desenvolveram dispositivos eletrônicos, similares a neurônios artificiais — que, na verdade, são chips de silício, material básico da fabricação de processadores de celulares e computadores — para o tratamento da doença crônica.

Não ficou tudo bem

Mesmo assim, há uma corrente de pacientes que não têm tanta certeza de que o diagnóstico foi positivo. Karlawish comentou que um de seus pacientes disse que “agora que você me contou algo sobre o meu futuro… eu não posso desaprender isso” Ou seja, para alguns essa resposta pode desencadear uma tempestade de emoções.

Já Wallace Rueckel, um paciente da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, diagnosticado com predisposição para o Alzheimer, começou a se preocupar muito mais com o futuro. Por enquanto, ainda não quis que outras pessoas — que não fossem seus familiares — soubessem de sua doença. Isso porque “não quero que as pessoas sintam pena de mim”, comenta o norte-americano.

Jay Reinstein, também da Carolina do Norte, soube que estava com a doença de Alzheimer ainda no estágio inicial, em março de 2018. Desde então, Reinstein deixou o emprego e tem procurado novas formas de viver a vida. “Eu estava entorpecido”, explica sobre o momento em que recebeu o diagnóstico e ficou muito deprimido.

Mais de um ano depois de convivência com a doença, Reinstein mudou completamente sua dieta e agora se exercita. Em uma medida de precaução para o futuro, já deixou pronto seu testamento. Além disso, decidiu se juntar à Associação de Alzheimer e fazer o possível para mudar o estigma da doença, “já que não quero ser definido [por ela].”

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Fonte: Canaltech


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