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Crítica Rua do Medo: 1666 – Parte 3 | Quando a fórmula perde o fôlego

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A “experiência cinematográfica do ano” prometida pela Netflix é, de fato, uma experiência única. Além de ser experimental — com a plataforma analisando e formando seu público de terror—, é uma experiência para o próprio espectador, incentivado a refletir criticamente as obras. Em um sentido mais superficial da palavra, a experiência de Rua do Medo: 1666 – Parte 3 é como andar em um “minhocão” depois de passar por duas montanhas-russas bastante empolgantes.

No igualmente recente Um Clássico Filme de Terror, a Netflix mostra que lida com os haters através do humor e deixa o filme satirizar seu público com uma crítica construtiva. Este filme, inclusive, é o que consegue fazer o pastiche aparentemente tentado por 1966, mas que não deu muito certo.

Após referenciar Dario Argento através da fotografia escolhida para uma história em que machismo e fé se confundem, a diretora Leigh Janiak acertou em cheio ao evocar o universo do terror e do feminino de A Bruxa, filme que colocou Robert Eggers entre os realizadores mais aclamados do gênero. A mudança de ritmo, no entanto, causa uma quebra em uma trilogia cujos dois primeiros filmes empolgaram justamente pela revitalização do slasher pipoca.


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Imagem: Reprodução/Netflix

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Estética

O primeiro choque é o estético. O colorido dos dois primeiros se esvai em uma paleta de tons secos e amarelados, deixando a expectativa de que, em algum momento tudo volte ao normal. Enquanto isso não acontece, a direção demonstra que o recurso foi utilizado para deixar mais clara a sensação de flashback, que, não por acaso, também casa perfeitamente com a ambientação histórica de 1666.

A diretora também usa o interessante recurso de reaproveitar os atores de 1994 para interpretar os personagens de 1666, criando um elenco que consegue inserir representatividades étnicas em narrativas que, ao longo da história, foram apresentadas como majoritariamente brancas no cinema. O efeito de um casting color-blind (quando a etnia não é levada em conta na escalação de elenco), sem recorrer a esse recurso. Apesar do lado positivo, o anacronismo pode soar bastante incômodo.

Mais ou menos na metade do filme, o anúncio da Parte 2 de 1994 – Parte 1 é um bug maravilhoso e bem-vindo. Daí para frente tudo o que acontece é um desfecho da história iniciada pelo primeiro filme, mas evocando pouco da empolgação com as referências que o primeiro longa trouxe.

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Imagem: Reprodução/Netflix

O desenvolvimento dessa segunda parte com cenas ambientadas nos limites do shopping lembra bastante a clássica metáfora de Despertar dos Mortos (1978), de George A. Romero, mas a atualização da fórmula já encontra mais dificuldade de atingir o público e a referência se perde como um easter egg para fãs do terror. Isto é, provavelmente, um efeito da retirada do elemento metalinguístico, já não tão expressivo, mas que ajudava a criar a atmosfera crítica. Ainda assim, fica a dica de que o filme zumbi e o slasher também podem se cruzar em um mutualismo interessante.

Moral da história

Não é uma fábula do Esopo, mas meio que esperamos uma lição nesses filmes de terror, mesmo quando o final é feliz — e pedir por um final triste em uma adaptação da obra de R. L. Stine seria errar rude e correr o risco de se tornar um alvo dos fãs. Há, claro, a inversão dos papéis sociais de heróis e vilões entre shadysiders e sunnysiders, mas vai pouco além disso — inclusive, é interessante notar que, embora Shadyside exista nos livros, Sunnyside é uma estratégia da adaptação cinematográfica, que divide diversos personagens dos livros entre os dois “times”.

Essa discussão toda, porém, já estava na primeira parte de 1994 e, a sequência surpresa não expande isso como se esperaria de uma trilogia depois do hype criado. Temos razão em nos sentirmos decepcionados, talvez, mas isso diz muito mais sobre a produção do que sobre a direção e é difícil saber o que guiou o trabalho de Janiak nessa parte final, que parece se aproximar bem mais da atmosfera infanto-juvenil dos livros, o que também começa a soar um pouco conservador depois de 1994 e 1978.

Ainda assim, a Trilogia Rua do Medo é uma grande história, empolgante e divertida, do tipo que não víamos há tempos. Um bom filme para viralizar, porque foi feito do pop para o pop e não tem intenção nenhuma de atingir os espectadores com arrogância, trazendo muitos caminhos de conhecimento, seja de história, de literatura, do terror ou mesmo auto-conhecimento, que, no final das contas, é o que toda arte nos convoca a fazer.

Rua do Medo: 1666 – Parte 3 está disponível no catálogo da Netflix.

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Fonte: Canaltech