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Crítica | História de um Casamento

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É um costume tentar resumir, ou exprimir em uma frase simples, qual é o estilo, ou o tema que certo diretor gosta de abordar em seus projetos, e que sempre retorna, obra sim, obra não.

Exemplos: Steven Spielberg é o cineasta que gosta de narrar aventuras que nos levam ao amadurecimento, para no final, nos trazer de volta para casa, para o nosso lar; Roman Polanski adora nos provocar e engajar na vida de personagens que se colocam em uma situação de cativeiro consciente; Mike Leigh documenta uma realidade rotineira de situações que parecem não haver um modo de serem expressadas por palavras.

Desta maneira, se pudermos sintetizar quem é Noah Baumbach de uma forma superlativa, seria como o narrador dos processos de adaptação das fases da vida.

Parece algo simples.

Não é.

Até o dia de hoje, o comovente Frances Ha (2012) se apresentava como a melhor obra do diretor rondando esta temática das mudanças em nossas rotinas, de perdas e ganhos. Todavia, História de um Casamento da Netflix consegue fazer o mesmo que o longa de sete anos atrás, com um adendo, já que desta vez, Baumbach vai dispor os dois lados da moeda, e poderemos acompanhar todas as minúcias sendo dissolvidas de seus valores pretéritos, e se transformando em outras, sem prévio aviso.

O longa produzido pela Netflix conta a história de Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), respectivamente, diretor de peças teatrais e atriz, que estão nos estágios iniciais de um processo de divórcio, disputando seus bens, mas especialmente, a custódia do filho Henry (Azhy Robertson).

Ao longo dos últimos meses, passando por festivais de relevância, como Veneza e Toronto, o filme de Noah Baumbach foi ganhando uma comparação com o clássico Kramer vs. Kramer (1979) de Robert Benton, vencedor do Oscar de melhor filme. O paralelo não é tão justo. Pelo pôster é possível notar a diferença. A obra de Benton tinha foco quase que total na figura paterna (o nome de Dustin Hoffman é o único em destaque), enquanto a figura da mãe – papel de Meryl Streep – é parte, apenas, dos extremos dessa história.

Ainda assim, o longa de Baumbach foi apontado como uma história que enfoca mais o papel de Adam Driver que o de Scarlett Johansson.

Sim, é a mais pura verdade. Temos mais tempo de Driver aqui, em comparativo da atriz mundialmente famosa por interpretar a super-heroína Viúva Negra no Universo Cinematográfico da Marvel. Não dá para negar isso!

Isso não significa que o papel materno tenha sido escanteado. Muito pelo contrário. Só observar a cena em que Nicole ouve um sermão de sua advogada – interpretada por uma competente Laura Dern – , dizendo as diferenças de tratamento que a sociedade judaico-cristã estabeleceu para os papéis de pai e mãe.

Se faz urgente em História de um Casamento, comentar as performances estelares e orgânicas da dupla de protagonistas. Geralmente, ao elogiar um par, comenta-se um, e depois o outro, impondo as diferenças. Porém, não neste filme da Netflix. Aqui, os louros vêm pela sinergia e emparelhamento trepidante dos dois em cena.

Passando da metade, teremos uma cena que prova isso, usando uma sutileza técnica da cinematografia de Robbie Ryan, que abre espaço para uma tempestade que vai alagar o recinto. Do céu aberto a ira da natureza que tentou acabar com a missão de Noé em dez minutos. Que momento precioso.

O único momento que Noah Baumbach se dá ao luxo de ser egoísta (algo completamente natural dentro do processo de luto), ocorre quando este cria uma cena quase farsesca – outro atributo narrativo bem pensado – envolvendo o seu chaveiro. Evoca-se uma tragicomédia que é comum na filmografia do diretor, apesar disso, fica-se com o coração na garganta por uma ideia de expectativa aterradora.

Recentemente, Martin Scorsese defendeu a longa duração de seu mais recente projeto, O Irlandês – também uma produção Netflix. O autor de cinema disse – ” … o ponto desse filme é a acumulação de detalhes”. Quando diz isso, o cineasta repassa aquela ideia básica de que uma construção elaborada e detalhista compõem o âmago de uma catarse que define nossas vidas, nossos destinos.

Justo, impossível discordar.

Embora, não seja possível afirmar que o cineasta de 77 anos de idade, conseguiu com O Irlandês, fazer o que Noah Baumbach fez com História de um Casamento, neste ano de 2019. Na medida em que o diretor mais celebrado não se aproveitou tão bem destes pormenores, como conseguiu o mais jovem Baumbach. Méritos para o roteiro – também escrito pelo cineasta – que condensou a trama dentro de uma elipse mais curta que a do filme de Scorsese. Oferecendo uma atmosfera de preciosidade mais pungente na vida deste casal em separação.

Em uma entrevista, como parte da divulgação do projeto Netflix, o ator Adam Driver comentou que quando algo é mal escrito, só há uma possibilidade de se interpretar aquela cena, mas, quando é bem escrito, a linguagem é tão rica, que abre-se espaço para algo diferente do que se imaginava.

É isto a que se resume História de um Casamento, um vórtex incontingente onde tudo que nos resta é sobreviver, e se adaptar. E, ficar na torcida para que o bem do passado, possa resistir no presente, e dar uma laço de segurança em nossas agonias.

Fonte: Observatório do Cinema