Sem categoria

Podemos falar a língua dos golfinhos? É certo: eles conversam entre si

Brasil247

Grupo golfinhos

Vídeo: TED Ideas Worth Spreading

Tradução para o português: Francisco Dubiela. Revisão: Rodrigo Beltrão

Denise Herzing passou três décadas pesquisando e se comunicando com golfinhos selvagens em seu meio natural e respeitando as suas condições e exigências. No livro “Dolphin Diaries” ele conta a sua extraordinária experiência com esses cetáceos.

Desde 1985 ela passa os verões numa área marítima junto ao arquipélago das Bahamas, como parte do Wild Dolphin Project. Esse trabalho possibilitou a Denise entender melhor a estrutura social do grupoo de cetáceos que observa, seu comportamento, meios de comunicação e o seu habitat natural.

A pesquisadora Denise Hersing durante palestra no TED

Um dos aspectos mais notáveis de sua pesquisa são os equipamentos que inventou para possibilitar aos humanos uma forma de comunicação com os golfinhos.

Vídeo: Denise Hersing fala da sua convivência com os golfinhos

Tradução integral da palestra de Denise Hersing proferida no TED:

“Bem, agora estamos indo para as Bahamas encontrar um grupo notável de golfinhos com quem trabalhei na natureza nos últimos 28 anos.

Sou interessada por golfinhos por causa de seus grandes cérebros e pelo que podem estar fazendo com esse poder cerebral na natureza. Sabemos que eles usam parte desse poder cerebral para viver vidas complicadas, mas o que realmente sabemos sobre a inteligência dos golfinhos?

Bem, sabemos algumas coisas. Sabemos que sua razão cérebro-corpo, que é uma medida física de inteligência, é superada apenas pelos humanos. Cognitivamente, eles podem entender línguas criadas artificialmente. E eles passam no teste de autopercepção nos espelhos. Em algumas partes do mundo, usam ferramentas, como esponjas para caçar peixes. Mas resta ainda uma questão: Eles têm linguagem, e se tiverem, o que eles estão falando?

Denise Hersing em plena ação no mar das Bahamas

Décadas atrás, não anos atrás, eu me dispus a buscar um lugar no mundo onde pudesse observar golfinhos dentro d’água para tentar decifrar o código de seu sistema de comunicação. Em muitas partes do mundo a água é muito turva, então é muito difícil observar animais dentro d’água, mas encontrei uma comunidade de golfinhos que vivem nesses lindos bancos de areia transparentes e rasos das Bahamas que estão a leste de Flórida. Eles passam o dia descansando e socializando com segurança nesses bancos superficiais, mas à noite eles parte para a borda e caçam no fundo do mar.

Agora, não é lugar ruim para ser um pesquisador, também. Então saímos por cerca de cinco meses a cada verão num catamarã de 20 metros, e vivemos, dormimos e trabalhamos no mar por semanas a cada vez. Minha principal ferramenta é uma câmera subaquática com um hidrofone que é um microfone subaquático, para que eu possa correlacionar som e comportamento. E a maior parte de nosso trabalho é praticamente não invasivo.

Tentamos seguir a etiqueta dos golfinhos enquanto estamos na água, já que estamos realmente observando-os fisicamente na água. O golfinho-pintado-do-atlântico é uma espécie muito boa para trabalhar por algumas razões. Eles nascem sem pintas, e ganham as pintas com a idade, e passam por fases de desenvolvimento muito distintas, então é interessante rastrear seu comportamento. Ao chegar na idade de 15 anos, eles estão cheios de pintas brancas e pretas.

A mãe que vocês veem aqui é a Mugsy. Ela tinha 35 anos nessa foto, mas os golfinhos podem viver até os 50, na verdade. E como todos os golfinhos em nossa comunidade, fotografamos a Mugsy e rastreamos suas pintinhas e as marcas de sua barbatana dorsal, e também seus padrões únicos de pintas enquanto ela crescia.

Agora, golfinhos jovens aprendem muito enquanto envelhecem, e eles usam seus anos de adolescente para praticar habilidades sociais. Aos nove anos e idade as fêmneas se tornam sexualmente maduras, então podem engravidar, e os machos amadurecem um pouco mais tarde, aos 15 anos de idade. Os golfinhos são muito promíscuos, e nós temos de determinar quem são os pais, então fazemos testes de paternidade coletando material fecal da água e extraindo o DNA. Isso quer dizer que, depois de 28 anos, estamos rastreando três gerações, incluindo avôs e avós. Agora, os golfinhos são especialistas em som. Eles produzem sons dez vezes mais altos escutam sons 10 vezes mais altos que nós. Mas eles têm outros sinais de comunicação que usam.

Eles têm boa visão, então eles usam posturas corporais para se comunicar. Eles têm paladar, não olfato. E eles têm tato. E o som pode ser sentido na água, pois a impedância acústica do tecido e da água são as mesmas. Então os golfinhos podem se chamar e se cutucar à distância.

Agora, sabemos algumas coisas sobre como os sons são usados com certos comportamentos. O assobio de assinatura é um assobio que é específico para um golfinho individual, e é como um nome. (Sons de assobios de golfinhos) Este é o som mais bem estudado, pois é fácil de medir, na verdade, e encontramos esse assobio quando as mães e seus bebês estão se reunindo, por exemplo.

Outro som bem estudado são os cliques de eco-locação. Este é o sonar do golfinho. (Sons de eco-locação de golfinhos) Eles usam esses cliques para caçar e se alimentar. Mas eles podem comprimir esses cliques juntos em chamados e usá-los socialmente. Por exemplo, os machos estimulam uma fêmea durante uma perseguição de corte. Vocês sabem, eu fui chamada na água. (Risos) Não contem para ninguém. É um segredo. E vocês podem sentir o som. Esse foi meu ponto sobre isso. (Risos)

Então os golfinhos são animais políticos, e eles precisam resolver conflitos. (Sons de golfinhos) E eles usam esses sons de rajadas em pulsos assim como seus comportamentos cabeça-a-cabeça quando brigam. E esses são sons muito pouco estudados pois são difíceis de medir.

Este é um vídeo de uma briga típica de golfinhos. (Sons de golfinhos) Vocês vão ver dois grupos, e vocês vão ver a postura cabeça-a-cabeça, algumas bocas abertas, muitos grasnidos. Aparece uma bolha. E basicamente, um desses grupos vai meio que recuar e tudo vai ficar bem, e isso não aumenta muito para violência.

Nas Bahamas nós também temos golfinhos-nariz-de-garrafa que interagem socialmente com os golfinhos-pintados. Por exemplo, eles cuidam dos bebês uns dos outros. Os machos têm expressões de dominância que usam quando estão perseguindo outras fêmeas. As duas espécies formam alianças temporárias quando estão afastando os tubarões. E um dos mecanismos que eles usam para comunicar sua coordenação é a sincronia. Eles sincronizam seus sons e suas posturas corporais para parecer mais fortes e soar mais alto. (Sons de golfinhos) Agora, estes são golfinhos-nariz-de-garrafa e vocês vão vê-los começar a sincronizar seus comportamentos e seus sons. (Sons de golfinhos)Vocês veem, eles se sincronizam com seu parceiro assim como a outra dupla. Eu gostaria de ser coordenada assim.

Agora, é importante lembrar que vocês estão escutando apenas as partes humanamente audíveis dos sons dos golfinhos, e os golfinhos fazem sons ultra sônicos, e usamos equipamentos especiais na água para coletar esses sons. Agora, os pesquisadores mediram realmente a complexidade dos assobios usando a teoria da informação, e estima-se que os assobios pulsos estão muito relacionados às linguagens humanas. Sons de rajadas em pulsos são misteriosos.

Vejam estes três espectrogramas. Dois são de palavras humanas, e um é de uma vocalização de golfinho. Então tente adivinhar na sua mente qual deles é o do golfinho. Acontece que sons de rajadas em pulsos parecem um pouco com fonemas humanos.

Uma forma de decifrar o código é interpretar esses sinais e descobrir o que eles significam, mas é um trabalho difícil, e nós ainda não temos uma Pedra de Roseta. Uma segunda forma de decifrar o código é desenvolver alguma tecnologia, uma interface para fazer comunicação bimodal, e é o que nós estamos tentando fazer nas Bahamas e em tempo real. Agora, os cientistas usam interfaces de teclado para tentar ligar os pontos com outras espécies incluindo os chimpanzés e os golfinhos. Este teclado aquático em Orlando, Flórida, no Epcot Center, foi a interface bimodal mais sofisticada já criada, projetada para humanos e golfinhos trabalharem juntos embaixo d’água e trocar informações. Então nós queríamos desenvolver uma interface como essa nas Bahamas, mas num contexto mais natural. E uma das razões pela qual pensamos que podíamos fazer isso é porque os golfinhos estavam começando a nos mostrar muita curiosidade mútua. Eles estavam imitando espontaneamente nossas vocalizações e nossas posturas, e eles estavam nos convidando para as brincadeiras dos golfinhos.

Os golfinhos são mamíferos sociais, então eles amam brincar, e um dos seus jogos favoritos é levar algas marinhas, ou sargaço nesse caso, por aí. E eles são muito adeptos. Eles gostam de trazer e jogar isso de membro para membro. Neste vídeo, a adulta é a Caroh. Ela tem 25 anos, e esse é seu recém nascido, Cobalt, e ele está aprendendo a brincar nesse jogo.(Sons de golfinhos) Ela está meio que provocando e caçoando dele. Ele realmente quer esse sargaço. Agora, quando os golfinhos pedem para os humanos brincarem, eles frequentemente afundam verticalmente na água, e trazem um pequeno sargaço na sua nadadeira, e eles meio que lançam e soltam às vezes no fundo e nos deixam pegá-lo, e então nós fazemos um jogo de bobinho com o sargaço. Mas quando não mergulhamos para pegá-lo, eles o trazem para superfície e eles meio que agitam isso na frente da gente com sua cauda e o jogam para nós como fazem com seus bebês, e então nós pegamos e fazemos um jogo.

E começamos a pensar, bem, não seria legal se construíssemos uma tecnologia que permitisse que os golfinhos pedissem essas coisas em tempo real, seus brinquedos favoritos? A proposta original era ter um teclado pendurado no barco acoplado a um computador, e os mergulhadores e golfinhos iriam ativar as teclas do teclado e trocar alegremente ia informação e pedir brinquedos um ao outro. Mas rapidamente descobrimos que os golfinhos simplesmente não iriam acompanhar o barco usando um teclado. Eles tinham coisas melhores para fazer na natureza. Eles podiam fazer isso em cativeiro, mas na natureza…

Então construímos um teclado portátil que podíamos carregar até a água, e marcamos quatro objetos que eles gostam de brincar, o lenço, a corda, o sargaço, e também uma boia, que é uma atividade divertida para um golfinho. (Som) E este é o assobio do lenço, que está associado com um símbolo visual. E há assobios criados artificialmente. Eles estão fora do repertório normal dos golfinhos, mas eles são facilmente imitados pelos golfinhos. E eu passei quatro anos com meus colegas Adam Pack e Fabienne Delfour,trabalhando no mar com esse teclado usando entre a gente para pedir brinquedos enquanto os golfinhos nos assistiam. E os golfinhos podiam entrar no jogo. Eles podiam apontar o objeto visual, ou podiam imitar o assobio.Este é um vídeo de uma sessão. O mergulhador tem um brinquedo de corda, e estou no teclado à esquerda, e acabei de apertar a tecla da corda, e isso é o pedido dos humanos pela corda. Então eu recebi a corda, estou mergulhando, e estou basicamente tentando chamar a atenção dos golfinhos, pois eles são meio que crianças. Você precisa prender sua atenção. Eu vou jogar a corda, e ver se eles se aproximam. Aí vem eles, e então eles pegam a corda e a levam como um brinquedo. Agora, estou no teclado à esquerda, e na verdade esta é a primeira vez que tentamos isso. Eu vou tentar pedir pelo brinquedo, a corda, dos golfinhos usando o som da corda. Vamos ver se eles podem entender o que isso significa. (Som) Este é o assobio da corda. Aí vem os golfinhos, e eles jogam a corda. Oba! Uau!Isso foi só uma vez. Não sabemos com certeza se eles realmente entenderam a função dos assobios. Muito bem, aqui está o segundo brinquedo na água. Este é o brinquedo do lenço, e vou tentar levar o golfinho até o teclado para mostrar a ela o sinal visual e o sinal acústico. Agora esse golfinho, vamos chamá-la de “ladra do lenço”, pois ao longo dos anos ela fugiu com uma dúzia de lenços. Na verdade, a gente acha que ela tem uma butique em algum lugar nas Bahamas. Então estou me aproximando. Ela pega o lenço pelo lado direito. E tentamos não tocar muito nos animais, não queremos habituá-los demais conosco. E estou tentando levá-la de volta ao teclado. Então o mergulhado ali vai ativar o som do lenço para pedir por ele. Então eu tento dar a ela o lenço. Opa. Quase o perdi. Mas este é o momento quando tudo se torna possível. O golfinho está no teclado. Temos sua atenção total. E às vezes isso levou horas. E eu quis compartilhar esse vídeo com vocês não para mostrar grandes descobertas, pois elas não aconteceram ainda, mas para mostrar a vocês o nível de intenção e foco que esses golfinhos têm, e seu interesse no sistema.

Grupo de golfinhos-pintados-do-Atlântico

E por causa disso, decidimos que precisávamos de alguma tecnologia mais sofisticada. Então juntamos forças com a Georgia Tech, com o grupo de computação portátil de Thad Starner para nos construir um computador portátil aquático que chamamos de CHAT. [Cetacean Hearing and Telemetry: Telemetria e Audição de Cetáceos] Agora, ao invés de carregar um teclado dentro d’água, o mergulhador está vestindo o sistema completo, e é apenas acústico, então basicamente o mergulhador ativa o som num teclado em seu antebraço, o som é emitido por um fone aquático, se um golfinho imita o assobio ou um humano toca o assobio, o sons chegam e são localizados pelos dois hidrofones. O computador pode localizar quem pediu pelo brinquedo se houver correspondência de palavra. E o verdadeiro poder do sistema está nesse sistema de reconhecimento em tempo real, de forma que podemos responder aos golfinhos rapidamente e com precisão.

Estamos no estágio do protótipo, mas isso é como esperamos que funcione. O Mergulhador A e o Mergulhador B vestem um computador portátil e o golfinho escuta o assobio como um assobio, o mergulhador escuta o assobio como assobio na água, mas também como uma palavra pela condução óssea. Então o Mergulhador A toca o assobio do lenço ou o Mergulhador B toca o assobio do sargaço para pedir um brinquedo para quem tiver. O que esperamos que aconteça é que o golfinho imite o assobio, e se o Mergulhador A tiver o sargaço, se este for o som que foi tocado e pedido, então o mergulhador vai dar o sargaço para o golfinho que pediu e eles vão nadar alegremente para o pôr-do-sol brincando com o sargaço para sempre.

Até que ponto essa comunicação pode ir? Bem, o CHAT é projetado especificamente para capacitar os golfinhos a pedir coisas de nós. É projetado para ser bimodal. Agora, eles vão aprender a imitar os assobios funcionalmente? Esperamos e pensamos que sim. Mas enquanto deciframos seus sons naturais, estamos planejando em colocá-los no sistema computadorizado. Por exemplo, agora mesmo podemos colocar seus próprios assobios de assinatura no computador e pedir para interagir com um golfinho específico. Da mesma forma, podemos criar nossos próprios assobios, nossos próprios assobios de nomes, e fazer os golfinhos chamar por mergulhadores específicos para interagir.

Pode ser que toda nossa tecnologia portátil seja a mesma tecnologia que nos auxilie a nos comunicar com outras espécies no futuro. No caso de um golfinho, vocês sabem, é uma espécie que provavelmente está próxima de nossa inteligência de muitas formas, e pode ser que sejamos incapazes de admitir isso agora, mas eles vivem num ambiente diferente, e ainda precisamos ligar os pontos entre sistemas sensoriais.Quero dizer, imaginem como seria entender realmente a mente de outras espécies inteligentes no planeta.”



Talvez você também goste